Setor de tecnologia realiza demissões em massa em todo o mundo

Setor de tecnologia realiza demissões em massa em todo o mundo

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A organização sindical pode ser a peça chave para a garantia de empregos e direitos

Em um livro publicado em 1984, o “Silicon Valley Fever” (A Febre do Vale do Silício), o empresário fundador da Intel, Robert Noyce, afirmou que a “ausência do sindicalismo era essencial para a sobrevivência das empresas do setor”. Segundo ele, com a regulação e o acompanhamento de entidades sindicais, os donos do ramo certamente sairiam do negócio.

A avaliação de Noyce faz todo sentido, décadas depois, após o crescimento alucinante das empresas de tecnologia ao redor do mundo e, agora, em meio a crise econômica, com as demissões em massa no setor.

No último período, os conglomerados mais importantes de tecnologia dispensaram parte significativa do quadro de funcionários, como a Amazon, a Meta - Facebook, Instagram e WhatsApp, e o Twitter.

A Amazon do bilionário Jeff Bezos demitiu alguns empregados das unidades de dispositivos e, segundo fontes internas, existe um plano de 10 mil cortes de empregos na empresa, que representaria o fim de cerca de 3% dos postos de trabalho.

A Meta Corporation demitiu cerca de 11 mil funcionários, representando de 13% de postos de trabalho do total da equipe.

O corte de pessoal veio com a onda de instabilidade financeira da empresa. A receita do império de Mark Zuckerberg caiu 4% e os lucros 52%. A rasteira, muito provavelmente, veio após massivo investimento no chamado metaverso, com baixo retorno para a iniciativa, até mesmo dentro da própria empresa. 

E no Twitter, a situação pode ser ainda mais grave. O bilionário dono da Tesla e da SpaceX, Elon Musk, desde a compra da rede social tem não somente demitido milhares de funcionários como vem demonstrando certa tirania em seu novo cargo. 

Sem receber qualquer informe oficial sobre desligamentos, 7500 trabalhadoras e trabalhadores da empresa foram demitidos. Muitos deles receberam a notícia da demissão via a própria rede social, ao contrariar o novo dono da empresa em tweets públicos.

Conforme publicado pelo G1, os empregados receberam um aviso por e-mail que dizia: "se você tem certeza que quer fazer parte do novo Twitter, por favor clique no botão 'Sim' abaixo". O trabalhador que optasse por ficar, preenchia um formulário no qual Musk condicionava a escolha a "trabalhar longas horas em alta intensidade".

Em uma enquete com garantia de anonimato, sobre a decisão de deixar ou permanecer na empresa, 42% de 180 pessoas responderam "escolhi a opção de sair, estou livre!". 25% escolheram ficar "relutantemente" e apenas 7% disseram que vão ficar pois são "hardcore".

Durante a noite de 18 de novembro, após Musk anunciar que fecharia os escritórios temporariamente e que “apenas os bons ficariam”, o Twitter sofreu séria instabilidade de funcionamento.

Um vídeo de funcionários com 8, 9 anos de carreira na empresa, anunciando a demissão e saída do prédio com contagem regressiva, viralizou na mesma noite. Os trabalhadores da empresa têm tratado o novo chefe de “mimadinho”, "bebezão medíocre", "racista mesquinho", "megalomaníaco", "bilionário inútil". Os termos foram, inclusive, projetados na sede do Twitter em São Francisco, EUA.

No Brasil, os usuários do Twitter migraram para uma versão similar de rede social, a indiana “Koo”. Em um só dia, o app alternativo ganhou um milhão de novos usuários e chegou a ser o aplicativo mais baixado no país. No ranking dos países que utilizam o microblog, o Brasil constava em 75º lugar. Hoje é o segundo com mais usuários.

A debandada pode não arranhar gravemente o já conhecido Twitter mas, certamente, impacta onde o bilionário Elon Musk mais pode sentir: no bolso.

Sob pressão financeira desde a compra da rede social, o bilionário precisa resolver a dívida de 13 bilhões contraída para a aquisição do negócio, enquanto a empresa segue perdendo dinheiro em um processo de queda que dura cerca de 8 anos.

O envolvimento de Musk com polêmicas desnecessárias e posicionamentos políticos controversos tem causado mais declínio na publicidade digital no Twitter.

Anunciantes que fornecem 90% da receita do Twitter cessaram seus gastos na plataforma, citando temores sobre como o conteúdo do site poderia mudar sob a direção de Musk. 

Reorganizar e resistir

Se o movimento no setor de tecnologia ao redor do mundo tem sido o de demissões - globalmente mais de 120 mil funcionários foram demitidos de acordo com o site Layoffs.fyi, que acompanha os cortes na área de tecnologia - a resistência de base também tem mostrado forte impacto na realidade.

Na Google e Amazon, por exemplo, ainda no período de pandemia, houve esforços para a criação de sindicatos, principalmente a partir de reivindicações mais voltadas para as condições de segurança sanitária e por melhores salários. 

Em 2019, a Google contratou a IRI Consultants, uma empresa conhecida por perseguir ações sindicais, e que chegou a demitir, naquele mesmo ano, funcionários organizados em defesa da sindicalização. Segundo a NLRB (Conselho Nacional de Relações de Trabalho, sigla em português) denunciou, a Google espionou os trabalhadores militantes antes de demiti-los.

Em 2022, os trabalhadores do centro de distribuição da Amazon de Staten Island, Nova York, EUA, criaram o primeiro sindicato de trabalhadores da empresa, sob dura pressão antissindical, tal como ocorreu na Google.

E engana-se quem pensa que o setor tem sido sacudido apenas pelas categorias mais especializadas e técnicas. A classe mais precarizada foi a que mais movimentou as lutas nos últimos tempos.

Segundo relatório da Collective Action In Tech’s, em 2021 foram criados 14 sindicatos de trabalhadores do setor de tecnologia, de perfis mais pulverizados e menores, mas com crescente envolvimento de trabalhadores das chamadas Big Techs, apesar de todas as barreiras de organização e práticas antissindicais nesses locais de trabalho.

Os motoristas de aplicativo, por exemplo, não são desenvolvedores de software ou experts em sistemas de dados, mas formam um grupo enorme e crescente de funcionários da tecnologia que mais lutam contra o processo de uberização, a chamada “escravidão digital”. 

Na Croácia, trabalhadores uberizados realizaram greve contra pagamentos atrasados.  Ações coordenadas por direitos tiveram êxito no Reino Unido e na África do Sul, onde os motoristas levaram a Uber à Corte. No caso britânico, os motoristas obtiveram direito a férias, pensões e salário mínimo. 

Na última edição do Labor Notes, nos EUA, que contou com a participação da delegação da CSP-Conlutas e da Rede Sindical Internacional, representantes de setores precarizados dessas grandes empresas de tecnologia compartilharam suas experiências sobre a criação de sindicatos e de organizações de classe.

Trabalhadores do Sindicato dos Trabalhadores da Amazon (ALU) de Staten Island disseram que a luta da categoria despertou um novo senso de possibilidade entre os trabalhadores de alguns dos maiores empregadores do país que não são sindicalizados.

Eles disseram ter ouvido de trabalhadores de outras cerca de 100 instalações da Amazon em todo o país que querem se sindicalizar e acreditam que o processo se dará em efeito cascata.

Tudo isso nos confirma que apesar de a roupagem das grandes empresas de tecnologia serem bem modernas e até amigáveis, a prática antissindical, as ações de truculência e ameaças são constantes quando trabalhadoras e trabalhadores se levantam contra ataques e por direitos. 

E por isso, a luta internacionalista de trabalhadoras e trabalhadores de todas as classes deve ser fortalecida e organizada, para que a opressão, a repressão e exploração que fazem parte do mercado tecnológico sejam condições derrubadas em um novo sistema justo e igual para todos.

Leia também: CSP-Conlutas participa da Conferência Labor Notes em Chicago, EUA

Imagens: Joe Piette Creative Commons com atribuição

 

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