Do golpismo no Brasil aos crimes contra a humanidade na Palestina ocupada

Do golpismo no Brasil aos crimes contra a humanidade na Palestina ocupada

Soraya Misleh

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Nas manifestações da última segunda-feira, 9 de janeiro, por liberdades democráticas no Brasil, entre os milhares que tomaram as ruas estavam integrantes da comunidade árabe-palestina e pessoas solidárias que portavam keffiyehs e hatas (lenços tradicionais palestinos) e bandeiras palestinas. Esses símbolos de uma resistência que não se curva ao colonizador sionista e ao imperialismo, como de praxe, sempre se veem em meio às lutas justas contra a opressão e exploração em todo o mundo. Um dia antes, nas mãos de golpistas brasileiros, bolsonaristas “raiz” que protagonizaram em Brasília cenas de vandalismo abjetas e vergonhosas, era possível observar muitas bandeiras israelenses.

O uso por essa turba fascistoide foi popularizado por sua liderança, Jair Bolsonaro, em seus quatro anos de desgoverno – legado que sobretudo seu filho Eduardo tem se esmerado em preservar e defender na Câmara dos Deputados.

Adotando tom messiânico, Bolsonaro repercutia os discursos enganosos de lideranças neopentecostais, com base na doutrina dispensacionalista que apresenta “Israel” como uma espécie de reino divino na Terra. Daí a utilização por esses grupos fanáticos golpistas da bandeira sionista, símbolo do projeto colonial e racista na Palestina ocupada. Bolsonaro é o mentor intelectual da expressão golpista que escandalizou o mundo na última segunda-feira. Deputados de sua base e pró-Israel como Bia Kicis (PL-DF) se colocaram ao lado dos golpistas. Não à toa, cresce o movimento em que a principal reivindicação é “Sem anistia”, em que presença palestina é certa.

Sem direitos e liberdade

Os palestinos sabem muito bem o que é não ter quaisquer direitos humanos fundamentais e democráticos garantidos, em meio à sua luta por libertação nacional. No mesmo dia 8 de janeiro, em que o Brasil se deparava com o vandalismo em Brasília que marcou a tentativa de golpe, o ministro da Segurança Pública de Israel, Itamar Ben-Gvir, proibia até mesmo a exibição da bandeira palestina em público nos territórios ocupados – o que foi condenado pela Anistia Internacional como mais um ato de punição coletiva e racismo.

Ben-Gvir, que em seu histórico racista inclui invasões à Mesquita de Al-Aqsa e atuação em prol da contínua limpeza étnica dos palestinos de sua terra, protagonizou na semana passada mais uma incursão à Esplanada das Mesquitas, definida pelo Itamaraty como violação “profundamente lamentável”.

Para quem não se lembra, e está justamente chocado pelas vergonhosas cenas de vandalismo em Brasília no último domingo (8/1), deveria também se indignar com a situação terrível dos palestinos sob apartheid: a própria Mesquita de Al-Aqsa já foi vandalizada e quando forças de ocupação invadem as casas brutalmente – o que ocorre com frequência –, as cenas são de depredação. Durante a pandemia de covid-19, clínicas e laboratórios de teste de palestinos chegaram a ser destruídos. Sem contar os estragos a cada criminoso bombardeio israelense em Gaza, que por óbvio não poupam nem mesmo escolas, hospitais e toda a infraestrutura local.

Nesta semana, mais dois prédios foram demolidos pelas forças de ocupação na aldeia de Al-Baqaa, perto de Al-Khalil (Hebron), na Cisjordânia, Palestina ocupada. Só nestas duas semanas do ano de 2023, já foram 59 estruturas demolidas, segundo o Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha, em inglês). Em 2022, conforme a mesma fonte, foram 952. Muitas vezes os próprios palestinos são obrigados a demolir suas casas – e ainda pagar por isso. O argumento sionista é que não tinham alvará de construção, mas Israel, como um estado de apartheid e ocupação, raramente concede permissões a palestinos. Essa é apenas a justificativa para uma ação que integra o projeto de continuidade da limpeza étnica há mais de 75 anos, que serve à expansão colonial agressiva.

Em relatório de setembro de 2021, a organização palestina de defesa de direitos humanos Al-Haq revela: “Demolir uma casa não é apenas destruir uma estrutura física, é apagar as memórias de um lar que simboliza toda a vida de uma pessoa e o seu sentido de identidade. Israel tem usado a demolição de casas como método de guerra desde a Nakba, construindo sua existência com a destruição de pelo menos 531 cidades e vilarejos palestinos, a morte de cerca de 15 mil palestinos e o deslocamento forçado de 750 mil a 900 mil refugiados e deslocados internos. Desde então, as demolições de casas continuaram, justificadas pelo princípio da necessidade militar – especialmente na Faixa de Gaza, como medidas de punição coletiva, bem como por razões administrativas. Esta última ganhou força nas últimas décadas, particularmente em Jerusalém, como um método sutil para buscar a transferência contínua de palestinos de Jerusalém, ao mesmo tempo que fundamenta o que equivale a graves violações do direito internacional.”

A Al Haq continua: “As demolições de casas têm sido ferramentas centrais para facilitar a apropriação e expropriação de terras por Israel. As leis israelenses de planejamento e zoneamento foram desde o início projetadas para impedir o desenvolvimento urbano palestino, por meio de arranjos legais elaborados, incluindo procedimentos de licença de construção longos, caros e complexos e várias proibições de construção com base em designações de terras como ‘áreas verdes’ ou ‘áreas de parques nacionais’ para limitar tanto quanto possível a construção palestina, com o resultado de que apenas 13% das terras de Jerusalém Oriental estão destinadas à construção, em áreas já fortemente urbanizadas.”

Ainda conforme o relatório, diante da “pressão demográfica e necessidade de expansão urbana, juntamente com a negação das autoridades israelenses de 93% das licenças gerais de construção, os palestinos são forçados a construir suas casas sem permissão. Estima-se que entre 30 e 50% das casas palestinas em Jerusalém foram construídas sem licença, colocando cerca de 100 mil pessoas em risco. Posteriormente são obrigadas a demolir suas casas [pelo Estado de Israel], sob a cumplicidade tácita de organizações de colonos.”

“De janeiro de 2009 a novembro de 2019”, indica a Al Haq, “952 casas e estruturas palestinas foram demolidas em Jerusalém, induzindo o deslocamento forçado de 3.058 palestinos, incluindo 1.196 crianças. As demolições em Jerusalém representam cerca de 20% do total realizado em toda a Cisjordânia ocupada. Entre 1º de janeiro de 2021 e 24 de agosto de 2021, Al-Haq documentou 42 casas demolidas em Jerusalém, incluindo 30 demolições autoexecutadas. O aspecto da autoexecução eleva as demolições de casas a outro patamar da opressão israelense imposta aos palestinos, obrigados a realizar sozinhos o desmonte de suas casas.” Caso se recusem, são obrigados a arcar com multas adicionais de US$ 2.500 e até 18 meses de prisão.

Autoridades e meios de comunicação de massa brasileiros classificaram os bárbaros atos de vandalismo praticados por golpistas em Brasília – que destruíram inclusive patrimônio histórico nacional imaterial – como “terroristas”. Deveriam igualmente reconhecer que os palestinos estão cotidianamente submetidos a terrorismo de Estado e apartheid – promovendo de imediato embargo militar e ruptura de acordos –, assim como estes se somam no Brasil aos atos por liberdades democráticas e fazem coro à palavra de ordem “Sem anistia”. Que Bolsonaro e sua turma vão para os bancos dos réus. E levem junto, no Tribunal Penal Internacional, seu aliado explícito, Israel, pelos crimes contra a humanidade.

Soraya Misleh - Integrante da Frente Nacional Em Defesa da Palestina e militante da CSP-Conlutas

Artigo publicado originalmente no Monitor do Oriente

Do golpismo no Brasil aos crimes contra a humanidade na Palestina ocupada

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