Mulher, vida, liberdade: entrevista com ativista iraniana Mahmooni sobre as lutas no Irã

Mulher, vida, liberdade: entrevista com ativista iraniana Mahmooni sobre as lutas no Irã

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Por: Sâmia Teixeira

Com protestos que já duram um mês, a luta por justiça para Mahsa Amini e as mulheres iranianas continua firme. Ativista iraniana conversou com a CSP-Conlutas e destacou a necessidade de apoio internacional.

Neste domingo (16), completa-se um mês da detenção seguida de morte da iraniana Mahsa Amini. A jovem foi vítima da polícia moral iraniana por não utilizar o véu da maneira imposta pelo regime autoritário do aiatolá Ali Khamenei.

O crime brutal causou uma onda de protestos no Irã e no mundo. Com manifestações de apoio motivadas pela indignação e pelo desejo de justiça para a família da jovem e as mulheres de forma geral, essa luta continua, ecoa e atravessa fronteiras.

A CSP-Conlutas conversou com a ativista e artista iraniana Mahmooni, para trazer à tona um pouco da realidade vivida pelas mulheres no Irã e alcançar mais apoio internacional com o objetivo de fortalecer a mobilização por direitos, dignidade e liberdade às mulheres, não somente iranianas, mas do mundo todo.

“Fortalecer a luta das mulheres iranianas significa fortalecer a luta das mulheres no Afeganistão”, pontuou Mahmooni. E, da mesma maneira, fazer chegar manifestações de apoio desde o Brasil até o Irã impacta, de maneira bem importante, na disposição de enfrentamento dessas mulheres que sofrem com repressão, prisão e até a morte como vem acontecendo nesse mais recente levante popular no país.

Até o momento, segundo dados da ONG IHR (Iran Human Rights), pelo menos 201 pessoas, incluindo 23 crianças, foram mortas desde o início dos protestos em todo o país. Muitas crianças em idade escolar também foram presas. O próprio ministro da Educação afirmou que os detidos foram enviados para “centros psiquiátricos” para serem “corrigidos”.

Essa luta que, em sua palavra de ordem principal inicia com “mulher”, precisa de apoio internacional constante. É preciso derrubar os regimes totalitários, misóginos e opressores, no Irã, no Afeganistão e em tantos outros ao redor do mundo. 

A liberdade da mulher e de todos os povos só será possível plenamente com a destruição do sistema capitalista. E a vitória em cada batalha só será vencida com a luta classista e internacionalista.

Confira a entrevista com Mahmooni ou assista na íntegra a conversa ao final da matéria, em vídeo publicado no canal da CSP-Conlutas.

 

CSP-Conlutas: Mahmooni, gostaria que se apresentasse, contasse um pouco sobre você e sua vinda para o Brasil?

Mahmooni: Muito obrigada pelo convite. Estou muito feliz que finalmente alguns meios de comunicação estão dando voz às iranianas, ao povo do Irã. No Brasil não há muitos iranianos, e as notícias que chegam no Brasil chegam diretamente do governo do Irã, e essas não são notícias verdadeiras. Então estou aqui para contar o que ocorre de verdade no Irã. Bem, eu sou uma mulher iraniana, eu fugi do Irã e o principal motivo foi a falta de liberdade para as mulheres. Então, sempre que concedo entrevistas e faço minhas apresentações no Brasil, busco explicar que eu saí do meu país porque no Irã não tinha direito à liberdade de expressão. Depois da Revolução Islâmica, que aconteceu há 43 anos, com a chegada do aiatolá Ali Khamenei, vivemos sob as leis islâmicas e tudo foi ficando bem radicalizado e as mulheres foram perdendo direitos. Todas as opções de escolhas foram retiradas. Passamos a ter que sair de casa somente com a vestimenta obrigatória, como um uniforme, com véu, roupa longa, calça, corpo completamente coberto e fechado. E assim é para entrar na escola, universidade, nos hospitais, lugares públicos, para você existir, somente dessa maneira, sem poder escolher. 

Para estudar, infelizmente, uma criança de 7 anos, uma menina, já precisa usar essas roupas. Quando o clima é quente, a vestimenta é muito pesada, cansa essas meninas O corpo não pode ser apenas um objeto sexual, o olhar deles é sempre voltado para a sexualidade, não nos enxergam como humanos. 

Quando entramos na escola, sentimos a diferença em relação aos meninos. Até quando a mulher deve ter paciência para aceitar isso? Queremos que nossas próprias regras sejam respeitadas, e não estamos mais quietas. Não podemos ficar mais caladas.

Essa é uma dor universal, de todas as mulheres no mundo, apesar de no Brasil não haver o uso do véu, existe desigualdade. Estamos todas no mesmo caminho, precisamos viver como seres humanos, com mesmos direitos e escolhas, precisamos agora em uma só voz gritar contra a violência às mulheres do mundo. 

Eu saí do Irã em 2012, cheguei ao Brasil, e muitos amigos me perguntaram por que o Brasil? Porque não há comunidade no país, mas para mim era uma opção. Pensei: vou tentar abrir uma janela no Brasil e mostrar nossa música e cultura persa, apresentar meu povo para esse lugar no mundo. Estou aqui, minha irmã também está aqui, ela também é artista, e estamos aqui porque cantar no Irã, para a mulher, é proibido, é um crime subir no palco para cantar, ou fazer aulas de dança, se o governo descobre, você é presa, isso é crime, assim como é tirar o véu. Por causa dessas leis que saímos de nossa terra e começamos aqui uma outra vida, com liberdade que não tínhamos no Irã. E agora esse é o momento em que precisamos escutar as vozes do Irã. O véu obrigatório não é nossa cultura. Minha mãe, quando entrou na escola, antes da revolução islâmica, ela estudava sem véu, com saia na altura dos joelhos, ela tinha liberdade, e eu nasci depois da revolução e nos tiraram nossas vidas. Agora, não temos tempo para ficar caladas. Agora que mulher do Irã está se manifestando por “mulher, vida, liberdade”, nós precisamos levantar nossas vozes também porque é sobre todas nós.

CSP-Conlutas: Acho interessante quando traz a realidade da sua mãe e como isso foi mudando sob o regime do aiatolá. Como foi para você nesse período de decisão, até sair do país e chegar ao Brasil, você chegou a sofrer algum tipo de perseguição?

Mahmooni: Sim, na verdade quando eu cresci e entendi que como mulher não tinha os mesmos direitos, já senti porque minha paixão sempre foi ser artista, fazer arte, cinema, filmes, documentários, mas tudo era censurado. Qualquer tipo de produção era censurada. Esse véu que agora o mundo vê, que está queimando, isso não é só um véu, não é algo superficial, é um símbolo do sofrimento da mulher, de um país cheio de regras rígidas para tirar a sua liberdade e controlar o seu pensamento. No Irã, até as pinturas são censuradas, conforme as regras islâmicas, não podemos escrever, não temos escolhas. Eu e tantas outras mulheres estudamos, fazemos cursos, doutorados, mas é tudo muito cansativo e as iranianas são muito guerreiras. As que fizeram universidade nos abriram caminhos que seguimos até o final. Mas é tudo muito cansativo. Quando a mulher sai de casa, sempre tem um carro da polícia moral, para controlar a vestimenta, sempre. Quando nos aproximamos desses carros, nós nos fechamos, esperamos nos afastar para deixar o véu mais frouxo, respirar melhor. Essa polícia fica em todos lugares públicos, praças, shoppings, cinemas, teatros. Sempre com homens fortes. Se eles enxergam um pouco de cabelo aparecendo, já nos levam para a delegacia, documentam tudo, e pedimos perdão, prometemos não repetir [o crime] e assinamos um documento. Tiram fotos nossas como se fossemos criminosas, nos tratam como se não tivéssemos valor, nos tratam como lixo.

Isso quebra nossa individualidade, nossa autoestima como mulher. Depois que saímos da delegacia, nos sentimos mal por um, dois meses, ficamos muito chateadas por não ter falado de outra maneira, protestado, gritado com eles, mas eles são fortes, são leis, se trata de um governo autoritário, ditatorial, o supremo do Irã é o culpado, ele se coloca acima do Islã. Muitas jovens estão nas ruas, perdendo suas vidas, até quando teremos paciência enquanto estão quebrando nossa individualidade como mulher?

CSP-Conlutas: Querem a todo custo anular a mulher, quando tentam destruir a autoestima da mulher, quando querem uniformizar-lá dentro dessas regras. É importante como você separa o Islã do governo autoritário que se utiliza do Islã para oprimir. O que não difere em muita coisa com o que acontece no Brasil, com o fundamentalismo, o moralismo contra a mulher, acho importante isso que você traz de separar as questões, para saber qual o real inimigo, que é o governo, o regime e não necessariamente a religião, que não deve jamais se sobrepor aos direitos das mulheres e da população de modo geral. Você explicou bem sobre como funciona a polícia moral, queria saber, Mahmooni, sobre esse medo, me parece que as mulheres chegaram ao momento do “basta, não aguentamos mais”. Em 30 setembro ocorreu um ato em São Paulo, que você fez parte, tinha a presença de outras iranianas, e acho importante comentar sobre essa mudança de atitude a partir da morte de Mahsa Amini, que provocou esse rompimento com o medo, com as mulheres tirando os véus e enfrentando essas polícias. São muitas mortes, outras mulheres morreram depois de Amini. O que você pode dizer sobre esse sentimento dessas mulheres?

Mahmooni: Isso não aconteceu num momento, em um mês, uma semana. Isso foi acontecendo ao longo do tempo. Cada uma, a cada dia, foi fazendo algo contra isso, até chegar neste momento. 

Isso não aconteceu da noite para o dia, teve uma história até chegar nesse ponto. Há três anos, uma mulher tirou seu véu e ficou parada, em silêncio, no meio de uma rua movimentada. As pessoas olhavam e ela ficou em silêncio. Depois, a polícia a prendeu, falando que ela era louca, doente. Depois dela, muitas mulheres fizeram o mesmo gesto, em um protesto silencioso, em avenidas importantes, como em uma cujo nome é “Revolução”. Mais de 50 mulheres fizeram o mesmo, mas todas elas estão, até o momento, presas. Essas ações ajudam a todas as mulheres, na época eu fiz uma música em vídeo com uma canção sobre esse movimento e viralizou muito. Cada apoio ajuda a dar coragem para as mulheres.

Então, isso não aconteceu como no Big Bang, as mulheres acordaram e resolveram tirar o véu. A história é longa, vem desde depois da revolução islâmica, mas agora a diferença é que felizmente muitas pessoas conseguiram ouvir nossa voz. Em outros momentos, o governo conseguiu reprimir as mobilizações antes que elas se espalhassem. Há três anos, o governo cortou a internet e matou 1050 pessoas nas ruas. Todos sabem. Mas, dessa vez, pessoas ajudaram, inclusive cedendo internet para iranianas, e por isso conseguimos compartilhar vídeos de policiais atirando contra a população, crianças de 11 anos. Nos perguntamos, vocês [a polícia] estão matando pessoas agora e dizem que não mataram Mahsa Amini? Claro que mataram, porque para vocês matar é muito simples. 

Então essa é a diferença. Agora o mundo escutou a nossa voz, nossas manifestantes nas ruas, e todas queremos coisas muito simples, só queremos viver com liberdade. 

Esse é o momento importante em que podemos ver quais governos e países estão apoiando as mulheres. Muitos países estão até agora em silêncio. Muitos artistas no mundo estão apoiando esse momento no Irã, eles sabem nomes e sobrenomes das mulheres que até agora foram mortas, não só Mahsa Amini, primeiro foi ela, mas até hoje são muitas jovens que foram mortas. Por isso a mulher tenta chamar atenção com os cortes de cabelo em protesto simbólico. Como assim tirar a vida de pessoas por causa de cabelo? De mulheres, jovens que saíram de casa sem véu? Por isso cortamos os cabelos, para falar que isso não tem valor. Não é importante. Vidas são mais importantes que cabelo. Eu vivo isso, sinto isso no meu osso, é muito pesado. Não é só sobre o véu.

CSP-Conlutas: É sobre vida e direitos, certo?

Mahmooni: Sim! E agora, com esta oportunidade para mim, eu queria que vocês também, daqui do Brasil, ajudasse a ecoar a voz das iranianas. Nós estamos aqui, várias mulheres no Brasil, estou aqui há 10 anos, então precisamos de vocês do nosso lado. Se é de direita ou esquerda, se vai apoiar o governo do Irã, não sabemos, mas nós mulheres precisamos nos unir. Pela primeira vez, a primeira palavra no protesto é “mulher”. Pela primeira vez, numa manifestação, vem primeiro “mulher”, depois vida e liberdade. Isso é para todas as mulheres do mundo, não só para as iranianas. 

CSP-Conlutas: Pegando o gancho sobre o apoio, o que acha que nós, enquanto movimentos de mulheres, organizações sociais, como podemos ajudar a fortalecer esse movimento de iranianas?

Mahmooni: Precisamos do apoio. Isso é muito importante, de cada um de vocês no Brasil. Não vi muitos artistas ou alguém do governo, não vi muita gente saindo em defesa das mulheres iranianas, infelizmente. E vi inclusive fake news sendo noticiadas na GloboNews, informações falsas divulgadas pelo regime iranianos dizendo sobre supostas mortes de policiais do governo. Não vi nada parecido acontecer na mídia de outros países. 

Eu moro no Brasil há 10 anos, até quanto tempo escutaremos as notícias veiculadas pelo regime do Irã? De uma ditadura? Vamos divulgar informações corretas. Muitas jovens perderam suas vidas. Então o apoio é importante, porque se uma mulher ganha direitos, outras também ganham. Se a iraniana ganha direitos, as mulheres no Afeganistão ficam perto da mesma conquista. Se ajudamos no Irã, ajudamos no Afeganistão. Precisamos continuar o legado para todas as mulheres. Juntos somos mais fortes. Quero “mulher, vida e liberdade” no Brasil também. Vemos as inúmeras mensagens de apoio de mulheres da França, Bélgica, Suíça, Canadá, Turquia. Todas mandando mensagem. Nós queremos esse apoio das irmãs no Brasil, precisamos delas, nossa dor é igual, sofremos da mesma dor.

CSP-Conlutas: Acho importante ter citado as mulheres afegãs, porque elas demonstraram apoio mesmo com graves riscos sob o domínio do Talibã. Então, mesmo que tenhamos nossa democracia tão fragilizada, temos condições de manifestar apoio, como já foi feito. Existiu uma comoção maior quando aconteceu o crime, e sabemos que o consumo de notícias é rápido. O Afeganistão mesmo ficou num limbo, esquecido, e não podemos deixar que isso aconteça. Nessas oportunidades históricas, que demandam mais vozes, e a luta das mulheres é uma luta sem fronteiras. Interessante que a palavra de ordem comece com “mulher”. Nos movimentos daqui, alguns mais de vanguarda, tem sim sido discutido, temos dificuldade também na comunicação, para ter informações, sobre o que chega para a gente. Você acha que as redes sociais podem ajudar nisso?

Mahmooni: Sim, porque todo nosso contato tem se dado assim. Cada vídeo que sai em apoio às iranianas, mesmo esses do Afeganistão, com esses vídeos elas se sentem mais fortalecidas, mais corajosas, sentem que não estão sozinhas. Sabem que o mundo está vendo elas, dando continuidade à luta delas. Tenho colocado muito conteúdo no meu instagram, assim como tudo o que recebo de lá. [ o Instagram de Mahmooni é: @mahmooni ] Com isso, espero que elas vejam nossa voz de apoio no Brasil. Imagine, o Brasil é muito longe, mas quando vocês brasileiras apoiam essas mulheres, nossa voz chega tão longe. Isso vale muito para cada uma delas.

CSP-Conlutas: Sua escolha pelo Brasil tem algum traço de ativismo também?

Mahmooni: Sim, porque aqui não tinha comunidade iraniana, então eu queria trazer minha cultura, as histórias que o Brasil ainda não conhece.

CSP-Conlutas: Mahmooni, tem algo que queria falar que eu não perguntei, que acha que fez falta para a nossa conversa ou mesmo deixar uma mensagem final?

Mahmooni: Agora nesse momento, muito importante para todos brasileiros, tempo de eleição, que ainda não acabou, mas queria, por gentileza, por favor, não depende da escolha que vocês façam para presidente, se Lula ou Bolsonaro. Nós queremos o apoio de cada um de vocês, independentemente dos caminhos à esquerda ou à direita. 

Nós precisamos do apoio do governo novo, do presidente novo do Brasil, porque é um momento diferente. Queremos saber se o Brasil não é um governo machista, que apoia a ditadura do Irã, isso é muito importante. Se ficar calado, significa estar ao lado do Irã 

O novo presidente vai ser meu presidente, porque estou há 10 anos no Brasil, então queria falar por gentileza, escute a mulher iraniana que não tem voz, “mulher, vida, liberdade”. Não pedimos nada demais, é sobre vida, liberdade, mulheres, sobre o que está dentro de todos nós.

CSP-Conlutas: É importante que as pessoas demonstrem o apoio político, independentemente dos rumos das eleições, obviamente. Mas tivemos demonstrações de sobra de que o governo Bolsonaro nunca foi um governo que respeitou as mulheres. Então o desafio fica para quem quer se mobilizar e apoiar a luta das iranianas, os movimentos de mulheres, que vão continuar exigindo e lutando por seus direitos, independentemente dos próximos governos, porque os direitos das mulheres sempre foram parte das pautas de luta, nunca foram direitos dados, em nenhum governo. Então, que chegue de fato a quem quer apoiar a luta dessas mulheres, que significa, na prática, defender a vida de todas as mulheres em qualquer lugar do mundo. Obrigada, Mahmooni, pela sua disponibilidade e coragem. A CSP-Conlutas se coloca à disposição nessa luta, para potencializar esse movimento.

Mahmooni: Agradeço a todo apoio, sei que muitas mulheres nos apoiam no Brasil, e precisamos de mais, da maioria.

 

Mahmooni é artista e faz parte da Orquestra Mundana Refugi, formada por músicos e artistas de todo o mundo. Em seu Instagram, ela divulga sobre seus trabalhos, ativismo e o que acontece no Irã. Acompanhe: @Mahmooni

 

Assista ao vídeo completo da entrevista:

 

 

 

 

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