Entrevista: Erasmo Theófilo denuncia violência contra agricultores do Lote 96 (PA)

Entrevista: Erasmo Theófilo denuncia violência contra agricultores do Lote 96 (PA)

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Por: Lucas Martins

Já era tarde da noite do sábado (25) quando Erasmo Theófilo conseguiu ter um tempo pra responder às perguntas enviadas pela redação da CSP-Conlutas. Ele explica que a esposa está se recuperando de um início de derrame, assim ele teve de assumir todas as tarefas, que incluem cuidar da casa e dos quatro filhos.

Entre uma resposta e outra, Erasmo para, aprecia a sinfonia dos grilos e comenta sobre o que ele considera ser uma das maravilhas da Amazônia. A liderança dos agricultores do Lote 96, em Anapu (PA), encontra poesia nas coisas da terra, mesmo convivendo diariamente com a violência e ameaça de morte.

“Não são dias fáceis para as famílias do território”, ele salienta. Há um mês, um grupo de pistoleiros invadiu a região, ameaçou famílias com armas de fogo e incendiou duas casas. Os riscos continuam e um novo ataque é esperado.

A insegurança e a omissão das autoridades parecem tirar o sono de Erasmo, que seguiu atendendo as perguntas madrugada a dentro. Mas só o sono parece ter ido embora. A vontade de continuar na luta permanece forte, como você verá na entrevista a seguir.

Erasmo fala das dificuldades do dia a dia, da violência no campo e como a morte do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips o impactaram, bem como a sua comunidade, que também encontra-se num cenário de violência provocada pelo agronegócio. Confira:

Qual perigo enfrentado pelas famílias do Lote 96, neste momento?

Erasmo: O grileiro morreu e a família está em guerra, cada um quer sua parte da fazenda. Essas partes não são reivindicadas pelas famílias de agricultores, mas eles tão juntos quando se trata de querer a nossa saída pra aumentar o valor da fazenda e eles terem ainda mais lucro na venda. De momento, nós enfrentamos uma invasão de pistoleiros que ameaçou as famílias. Existe um fazendeiro interessado na área, então eles querem expulsar as famílias pra fazer o negócio. A causa principal do perigo é a demora do Incra em assentar as famílias e acabar de vez com esse processo. Essa ineficiência é que causa o problema.

Qual o clima na comunidade no dia a dia. Algo mudou na rotina?

Erasmo: Tem sido um desafio todos os dias. Para as famílias e para mim como representante. Quando havia o conflito com o grileiro, Antônio Peixoto, nós recorríamos à Justiça e ela ia diretamente a ele. Agora, há três integrantes da família reivindicando a fazenda. Então, nós nem conhecemos os mandantes desses ataques. São três novas mentes pensando maldades. Isso é muito mais complicado.

A comunidade exerce algum tipo de autodefesa?

Erasmo: Nossa comunidade é muito pacífica. Nós temos um conselho formado por sete pessoas, mais eu e Natália [a esposa]. Quando há um ataque, nós temos pessoas nas duas entradas. Estas são responsáveis por comunicar a invasão. Elas também vão filmando com o celular, documentando o que ocorre. Aí, nos reunimos todos no colégio que atende a comunidade e divulgamos tudo muito rapidamente pela internet. Nesses momentos, é importante a comunidade ficar toda reunida e nós tiramos os mais capacitados para ficar circulando e atentos à qualquer perigo. Infelizmente, quase sempre contamos apenas com nós mesmos pra fazer a segurança.

De que forma essa situação de violência alterou a produção agrícola das famílias?

Erasmo: Da cooperativa pra cidade, nós temos conseguido garantir a segurança. Os agricultores vêm até o armazém e depois enviamos pra fora. Nós temos um sistema de segurança. Quando alguém tem alguma produção, vem com outros companheiros escoltando. O que alterou é que fazíamos esse processo sempre sem escolta, agora precisamos de escolta, sim. Nós temos um dos melhores sistemas de proteção e falo porque estou vivo: contamos com nós mesmos.

Como vocês receberam a notícia da morte de Bruno e Dom?

Erasmo: Eu vivo essa merda. Minha cabeça está a prêmio. Vivo preso em uma casa e não posso sair porque posso ser alvejado e morto, assim como eles foram. Ver que o Bruno registrou inúmeros boletins de ocorrência, assim como eu registrei, e que ele denunciou, como eu denunciei, me dá uma revolta, sabe. Não só pela morte deles, mas pela inércia das autoridades. Bruno e Dom trazem à tona todo esse cenário de mortes. Há camponeses sendo mortos nesse momento e ninguém vai saber. São indígenas sendo estupradas ou expulsos dos territórios. Mortos. É muito foda isso, porque a minha missão agora não é apenas a luta direta, mas também a defesa de todos os que estão nessa luta de alguma maneira.

Desculpa te falar, mas o que mais vejo são os militantes de Facebook. Pessoas que tiram foto com o Raoni. Que tiram foto em frente a uma árvore, mas não sentem o gosto da terra sabe. Não sabem o que é isso daqui. Quer ter uma experiência pra sua vida? Vem pro Lote 96. Toma pra ti aquela luta. Vive aquilo ali. Faz um plantio e vê aquilo lá nascendo como nasce um filho, que vai ficando forte e produzindo. Eu entendo o Bruno e sua escolha de continuar com o trabalho, mesmo como um cidadão comum. Ele tentou fazer o melhor, mas aí veio a realidade nua e crua. Que é a realidade em que vivo. Parece loucura para alguns, mas é libertador pra gente que tá na luta. Metade do meu corpo queria estar no lugar mais seguro possível. A outra metade diz: “puta que pariu, Erasmo, tem tanta gente passando necessidade, tanta gente morrendo. Vamos fazer alguma coisa, a floresta tá ai, tá todo mundo tomando de conta.

Eu to puto com o Capital cara. É raiva. Você vive pelo Capital, come pelo Capital, é expulso pelo Capital, é morto pelo Capital. Ainda assim você continua no Capital. Porque tudo é capital. É foda ser socialista nesse mundo.

Quais são os culpados pelo aumento da violência no campo?

Erasmo: Hoje, Bolsonaro é o culpado, mas outrora foi Temer. Mais atrás foi Dilma, mais atrás ainda, foram Lula e Fernando Henrique. Todos são culpados. Se você teve a possibilidade de fazer alguma mudança e não fez, pra mim, você é culpado também. Nós também fomos culpados por votar em canalhas como esses. Poderíamos não votar. Mas eles foram eleitos. Mas a educação, meu colega, só a educação vai fazer a revolução.

Qual seria a solução pra esse cenário de violência contra as famílias?

Erasmo: Hoje, a situação do Lote 96 tá muito simples de resolver, basta o Incra e o governo federal se posicionarem. Já tem uma decisão judicial favorável. É só publicar a portaria no Diário Oficial e o conflito se acaba. Hoje, dependemos dessa portaria. O sonho das famílias do Lote 96 é ver essa portaria criada. Cada um com seu pedaço de terra produzindo e preservando.

O que você diria para quem está lendo essa entrevista.

Erasmo: Sempre ousem ser mais do que vocês imaginaram. Há muita luta aí pra ser travada. Tudo que eu vou fazer eu tenho que ter paixão. Eu ainda estou vivo e perturbando. Sou perseguido porque perturbo grileiros, madeireiros. Eu só estou sendo ameaçado porque atrapalho um projeto de destruição. Hoje, tenho meu modo de vida e luto por ele. Sou professor de agrofloresta, sou ambientalista, sou sindicalista, sou defensor dos direitos humanos e por tudo isso vou lutar com organização e força. A minha luta é pela floresta, mas não só. Há muita gente aqui invisibilizada. Lutadores que fazem muito mais do que eu. Há muito mais tempo. É por eles que eu vou lutar. Ninguém sabe o valor que tem a Amazônia. Não falo do valor monetário. Falo de acordar e ouvir as araras, tomar água de coco no pé, comer banana. Fazer um suco de cupuaçu, acerola e cajá. Sair, caçar, pescar. Banhar no igarapé.

Lutem, se é justo lutem. Vai valer a pena. Mesmo se você morrer, como foi com Dom e Bruno, a sua luta vai valer a pena se inspirar outras pessoas. Defendam a Amazônia, as crianças, indígenas, ribeirinhos, camponeses, extrativistas que existem nela. Expulsem com todas as forças os pecuaristas, sojeiros. É uma luta muito grande. De Davi contra Golias. Mas é justa e muito prazerosa. Eu só sei fazer o movimento social. Só sei viver se for pra apoiar alguma luta ou alguma causa. Continuem lutando. Não desistam de lutar. Não se vendam. Lutem, resistam!

O Lote 96 Resiste...

Foto: Cícero Pedrosa Neto/Amazônia Real

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