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Uma análise do setor bancário brasileiro sob a perspectiva do trabalhador

Uma análise do setor bancário brasileiro sob a perspectiva do trabalhador

Por Ana Paula Santana

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O setor bancário obteve em 2021, um dos melhores resultados de sua história. O lucro líquido consolidado dos quatro maiores bancos brasileiros (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander) no ano de 2021 foi de R$ 81,63 bilhões, que é o maior lucro nominal já registrado desde 2006 por esses bancos, número que ultrapassa o recorde anterior no ano de 2019, quando o lucro consolidado foi de R$ 81,50 bilhões.

Após uma queda verificada em 2020, a pandemia resultou em um ano de ouro para os bancos. Diante da pandemia, as empresas recorreram em dose redobrada aos bancos que, além do mais, se beneficiaram da disparada da taxa de juros estipulada pela Selic. Em razão disto, a taxa de lucro bruto foi de assombrosos 72,21%, quase o dobro do verificado nos demais anos.

Os bancos, no fim das contas, ganharam rios de dinheiro em 2021, sugaram parte significativa do excedente produzido pela classe trabalhadora em plena pandemia. A classe trabalhadora bancária, por seu turno, pagou duplamente pela pandemia, com redução do emprego e da remuneração

O caráter parasitário dos bancos, que vivem dos juros ganhos pela intermediação financeira entre os capitais, bem como dos serviços cobrados à classe trabalhadora, faz do setor bancário um setor sui generis na economia capitalista. Os bancos ganham com o desenvolvimento econômico e ganham na crise econômica. No primeiro caso, ganham por partilharem de uma elevada fatia do crescimento em função dos juros. No segundo caso, mesmo diante da queda de receitas de seus devedores, ganham com a elevação dos juros a que sempre culmina, cedo ou tarde, as crises. Esse fato é particularmente forte no Brasil nos dias de hoje, já que a inflação na casa dos dois dígitos há cerca de um ano, é combatida no Brasil com elevação da taxa de juros para reduzir o fluxo monetário.

Redução dos postos de trabalho e de remuneração

O setor vive forte reestruturação em função das mudanças tecnológicas, da assim chamada indústria 4.0. Como sempre, o desenvolvimento da automação e dos sistemas informatizados conduzem a redução da massa de trabalhadores empregados e, assim, a elevação da produtividade daqueles trabalhadores remanescentes, sem qualquer contrapartida em seus rendimentos. Os trabalhadores apenas podem colher os frutos do desenvolvimento técnico com organização e luta contra os proprietários do capital.

A redução total dos postos de trabalho é alarmante! O total de empregos registrados em 2012 foi de 414 mil 780 trabalhadores, terminando 2020 com um total de 272 mil 671 trabalhadores empregados no setor. Uma queda de 34,26%.

Três aspectos podem ser notados: a redução nos postos de trabalho coincide com o início da crise econômica brasileira, em 2013, quando o país amarga um quadro de estagnação econômica; coincide também, com o maior grau de automação no setor, processo genericamente denominado de indústria 4.0, e ainda, há um notório impacto da pandemia de COVID-19.

Acompanhada da redução dos postos de trabalho está a remuneração. Ao analisar a média em salários-mínimos dos trabalhadores do setor no período entre 2006 e 2020, notamos uma queda contínua nos últimos 15 anos. Em 2006, a remuneração média equivalia a aproximadamente 9,85 salários-mínimos. Houve uma queda superior a 2 salários-mínimos desde então, terminando o ano de 2020 com uma remuneração média de 7.76 salários-mínimos.

Outro aspecto que podemos notar é a tendência de maior crescimento dos empregos nos bancos privados em relação aos bancos públicos. Em 2006, os trabalhadores empregados pelos bancos públicos ou de economia mista representavam 35% do setor. Em 2020, representam 30%, ainda que possamos notar uma inflexão no ano de 2013, quando o número de trabalhadores empregados pelos bancos estatais cresceu de 32 para 38%.

Automação: a chamada indústria 4.0

A indústria 4.0 foi o nome que se convencionou chamar as transformações tecnológicas atualmente em curso, com impacto em toda cadeia produtiva, marcadas por um novo patamar na centralização, automação e processamento de dados. No caso do setor bancário, as novas tecnologias têm permitido a operação instantânea, virtualização e descentralização dos serviços bancários, com abolição ou redução de tarefas nas agências físicas.

Considerando os 5 maiores bancos do Brasil, o total de agências foi reduzido em mais de 4 mil em 5 anos. No início de 2017, os cinco maiores bancos do país possuíam 19,9 mil unidades, número que em março de 2022 caiu para 15,6 mil: uma queda de aproximadamente 21,6%. O marco temporal da queda é o ano de 2016, mas com uma estagnação verificada desde 2012, justamente quando o total de trabalhadores empregados no setor começou a decair.

A grande contradição, como podemos ver, não é o uso da tecnologia puro e simples. O problema é que longe de tal tecnologia servir para simplificar o trabalho e reduzir a jornada, ela é utilizada pelo capital bancário para demitir trabalhadores em massa e, dessa forma, reduzir a massa salarial e maximizar os lucros.

As transformações tecnológicas colocam como questão de vida ou morte para o setor a redução da jornada de trabalho e transformações sociais profundas, que ataquem a natureza mesma de uma forma de organização social que utiliza as conquistas humanas contra a massa dos trabalhadores e da população e não as coloca a serviço de seu desenvolvimento.

Crescimento da produtividade e exploração

O crescimento  da   produtividade dos trabalhadores teve como um dos principais elementos a redução do emprego, sobretudo durante a   pandemia de COVID-19. Como apontamos acima, essa redução está também associada a mudança de patamar tecnológico sem redução na jornada de trabalho.

Em 2020, houve uma queda de cerca de 20 mil trabalhadores e, ao final de 2021, apenas 9.243 empregos foram recuperados. No longo prazo, no entanto, a tendência é de queda geral nos empregos do setor.

O banco que mais sofreu cortes de empregos foi o Banco do Brasil, sucessivas vezes ameaçado de privatização pelo Governo Federal. São 29.585 empregos menos desde 2012 e 7.086 apenas em 2021. Por outro lado, o saldo mais elevado no emprego foi do maior banco privado no Brasil: o Itaú, com quase 10 mil desde 2012 e 3.098 apenas em 2021.

Finalmente,   verificamos   a   taxa de exploração nos bancos considerados. Entre 2015 e 2021, calculamos a exploração considerando o resultado bruto do banco mais a massa salarial de seus respectivos  trabalhadores.  Em seguida, em uma jornada de 8 horas de trabalho, apresentamos o tempo necessário para o pagamento dos salários, bem como o tempo em que a atividade dos trabalhadores bancários apenas gera resultados para a empresa, sem qualquer contrapartida para os funcionários.

Dos 21 bancos considerados, 17 apresentaram crescimento do índice de exploração em 2021, isto é, no percentual dos valores apropriados pelo banco reduziu-se proporcionalmente a parcela destinada ao pagamento dos seus respectivos trabalhadores.

Conclusões

Os bancos brasileiros são os mais rentáveis do mundo. O endividamento da população e as altas taxas de exploração dos trabalhadores bancários são alguns dos motivos para justificar essa mina de ouro. Há outros, como o conhecido sistema da dívida pública.

O processo de financeirização da economia brasileira tem aprofundado, com o deslocamento de capitais do setor produtivo para o setor financeiro. Junto a isso, o poder político e econômico do sistema financeiro tem ganhado destaque.

Ao mesmo tempo em que os bancos batem recordes de lucros, apoiados em uma taxa Selic superior à 12%, vemos as mais elevadas taxas de produtividade e exploração já verificadas no setor em mais de 10 anos. A política de arrocho salarial, demissões e aumento da exploração segue sendo aplicada, mas não sem resistência dos trabalhadores bancários, como vimos na campanha salarial de 2022. Pudemos acompanhar fortes mobilizações locais, debates com engajamento dos bancários sobre os impactos da pandemia covid-19 e das novas tecnologias na redução do número de trabalhadores.

As reflexões resultantes da análise acima, nos leva a crer da necessidade de transformações sociais profundas, que ataquem a natureza da forma de organização social que utiliza as conquistas humanas (o desenvolvimento tecnológico por exemplo) contra a massa dos trabalhadores e da população.  

Ana Paula Santana – Coodenadora do Ilaese (Instituto Latino Americano de Estudos Socioeconômicos)

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