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CSN: Da luta econômica à consciência de classe

CSN: Da luta econômica à consciência de classe

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Por: Claudia Costa

"Já foi-se o tempo em que dava orgulho trabalhar pra CSN. Hoje, é só humilhação e vergonha". Esse é o sentimento de parcela importante dos doze mil trabalhadores da planta da siderúrgica em Volta Redonda, no Rio de Janeiro – entre contratados e terceirizados.

"Quando entrei aqui, há mais de doze anos, eu ganhava mais de três salários. Hoje, não ganho nem um salário mínimo e meio”, lamenta um deles.

Desde o final de março, a campanha salarial da categoria tomou novas dimensões. No dia 8 daquele mês mais de 6 mil trabalhadores contratados votaram não à proposta de acordo coletivo apresentado pela empresa. Foram 99,3% dos votos, rejeitando o índice de 8,1 % de reposição salarial. Isto porque a quantia nem sequer cobria a inflação de 12 meses calculada em 10,74%.

No dia da votação ouvia-se comentários das dificuldades financeiras enfrentadas cotidianamente pela categoria. “A gente trabalha o mês inteiro e não consegue fechar as contas, é só dívida”, comentou um trabalhador do setor de andaimes com o colega. “Eu não consigo comprar um brinquedinho pro meu filho de dois anos, dá dó chegar em casa no final do mês e não poder levar nada pra ele”, rebateu o outro, da manutenção.

Os dois votaram contra a proposta da empresa e se engajaram na luta dos trabalhadores.

A ganância do capital

Um agravante da situação é que haviam ficado dois anos sem receber reajuste salarial, período em que a empresa e acionistas obtiveram lucro recorde. Em 2021, chegaram a lucrar R$ 13 bilhões e só no primeiro trimestre de 2022 foi mais R$ 1,7 bilhão de lucro líquido.

Benjamin Steinbruch, presidente da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), quando vice-presidente da Fiesp, em 2016, afirmou à Folha de São Paulo que uma hora de almoço, era tempo demais para os trabalhadores.

“Por exemplo, aqui a gente tem uma hora de almoço. Se você vai numa empresa nos Estados Unidos, normalmente não precisa de uma hora de almoço, porque o cara não almoça em uma hora. Você vê o cara comendo um sanduíche com a mão esquerda e operando a máquina com a mão direita. Ele tem 15 minutos para o almoço?”

O presidente da empresa também defendeu que direitos como FGTS, INSS, vale-transporte, vale- alimentação e 1/3 de férias deveriam ser livremente negociáveis entre patrão e trabalhador. “Eu não entendo que isso precise ser definido numa lei”, disse.

É diante dessa concepção que atualmente o operário da CSN enfrenta a vida com um salário de em média R$ 1.300,00 por mês. Escravizado por um famigerado banco de horas, pois não recebe horas extras, perdeu a cobertura nacional do plano de saúde, o turno que era de 6 horas passou para 8 horas e não recebe PLR (Participação nos Lucros e Resultados).

Frente às perdas salariais, os trabalhadores reivindicam 30% de reajuste, PLR maior, cartão alimentação de R$ 800, bônus extra no Natal, piso salarial de R$ 1.815, equiparação salarial, implementação do plano de carreira e estabilidade no emprego. Outra demanda incorporada pelo movimento é a anulação das demissões contra os grevistas.

Isto porque como retaliação ao movimento a direção da CSN além de intimidar, demitiu toda a Comissão de Base e mais de uma centena de empregados.

A traição da diretoria do Sindicato

Essa degradação das condições de salário e de direitos se impôs com a anuência da atual direção do sindicato da categoria que, por esse motivo, sofre uma repulsa legítima, justa e generalizada na usina.

"Esse sindicato safado tirou nosso plano de saúde, botou a jornada para 8 horas e faz três anos que temos zero de reajuste", comentou revoltado Ronald Andrade Gomes, membro da Comissão de Base.

Foi nesse catastrófico cenário que, indignados, os trabalhadores e trabalhadoras se levantaram em luta, esse ano, e continuam em mobilização em defesa de suas pautas em meio ao período de data base que, inclusive, já foi prorrogado duas vezes.

A luta em curso se dá à revelia do sindicato que também não consegue frear o movimento.

“Em Volta Redonda é escandaloso observar tanta traição, imobilismo e parceria com a patronal por parte da atual direção do sindicato. É repugnante!”, critica o advogado Tarcísio Xavier Filho, que defende judicialmente os trabalhadores demitidos.

Organização e luta pela base

Tudo indica que tudo começou com uma explosão da base iniciada pelos operários e operárias do andaime. No final de março, pararam as atividades e saíram em caminhada dentro da fábrica, arrastando centenas e, por três semanas, reuniram milhares em protesto contra as péssimas condições de trabalho e de salários.

“Ô, o peão voltou, o peão voltou, o peão voltou, ô”, entoando esse “grito de guerra”, persistem na mobilização e enfrentam dezenas de demissões ilegais, a intransigência da empresa e as vergonhosas manobras da direção do sindicato da categoria que, na prática, se tornou uma agência de defesa dos interesses da empresa contra os trabalhadores.

Gestada no chão da fábrica, uma comissão de base tomou a frente dos protestos e se afirmou como direção independente do movimento e tem contado com o apoio incondicional da CSP-Conlutas, bem como de inúmeras outras entidades do movimento, inclusive, influenciando uma articulação nacional dos trabalhadores e trabalhadoras da CSN.

“Estamos diante de uma mobilização histórica da classe operária brasileira nesse último período. Sim, histórica e nacionalizada pois, junto às manifestações de Volta Redonda (RJ), também ocorreram paralisações importantes nas minas de Congonhas (MG) e dos trabalhadores do Porto de Itaguaí (RJ)”, destacou o integrante da Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas Atnágoras Lopes que vem acompanhando a mobilização desde o início.

Essa luta, que ainda está em curso, já demonstra e aponta muitos ensinamentos. Partindo de uma pauta econômica e pela força do processo vem brotando uma enorme vanguarda de ativistas, fertiliza-se o terreno do campo das ideias, dos questionamentos, da descoberta dos agentes da exploração capitalista, do papel nefasto que cumpre uma burocracia sindical quando vendida, da importância de se retomar o tema da reestatização dessa empresa - que já foi símbolo de orgulho e de soberania nacional -, da necessidade de construir uma nova direção com independência de classe para o movimento e tantos outros assuntos.

“Assistir ao protagonismo dessa vanguarda, que orbita em torno da Comissão de Base, que influencia a massa operária e que, por mais de dois meses nos diferentes estágios dessa luta, mantém-se erguida é um sinal do esperançar-se quanto ao papel estratégico da classe operária”, reflete Atnágoras.

Uma conversa entre o dirigente e membros da Comissão de Base ilustra a reflexão.

“A gente começou só pela pauta, pelos 30%, mas agora não, nós estamos vendo tudo e já percebemos que é mais do que isso. É contra o sistema”, analisou Ronald.

“É isso, meus camaradas, bem-vindos às fileiras da luta de classes e tem de ser contra o sistema, sim”, assegurou Atnágoras.

 

 

Eleição sindical. A hora da mudança

A vontade de varrer os pelegos da entidade, que já era de massa no chão da fábrica, agora encontra o patamar da real possibilidade de fazê-lo e essa é mais uma enorme lição e conquista desse movimento.

O dirigente da CSP-Conlutas acredita na hipótese dos trabalhadores e trabalhadoras de Volta Redonda retomarem em suas mãos o controle da entidade: “Reconduzir essa ferramenta ao caminho da independência de classe e, por esse objetivo, nós seguiremos cerrando fileiras no apoio a esse processo para que se arranque conquistas da pauta e, ato contínuo, possa-se derrotar os pelegos e agentes patronais da casa do trabalhador que é o sindicato”, sugere Atnágoras.

Ainda sem data marcada, está prevista para o mês de julho a eleição para diretoria do Sindicatos dos Metalúrgicos Sul Fluminense cuja parte significativa da base é composta por trabalhadores da CSN. 

Formada pelos integrantes da Comissão de Base dos Trabalhadores e da Oposição Metalúrgica, com o apoio da CSP-Conlutas e CTB, foi lançada, no dia 2 de junho, a Chapa 2: a Hora da Mudança.

Entre as principais bandeiras defendidas pela Chapa 2 estão a reintegração de todos os trabalhadores demitidos na Campanha Salarial e a melhoria de salários e direitos. Os companheiros também se comprometeram a construir um sindicato combativo e democrático.

O candidato à presidência da entidade é o cipeiro de luta Edimar Pereira, reconhecido dirigente das mobilizações que vêm ocorrendo na empresa.

Greve de 1988 entrou para história

Os operários da CSN têm história de luta. Mesmo antes da privatização da empresa, em 1993, protagonizaram importante greve em 1984, ainda no período da ditadura militar, e uma greve que entrou para a história do movimento sindical brasileiro, em 1988.

Cerca de 10 mil operários pararam a siderúrgica por 17 dias exigindo reposição salarial e melhorias nas condições de trabalho. A paralisação transformou-se numa greve de ocupação. As práticas militaristas ainda imperavam no país, apesar do final do regime ditatorial em 1985, assim, o governo José Sarney optou por entrar com tropas do Exército de vários quartéis do estado do Rio de Janeiro e do Batalhão de Choque da Polícia Militar na empresa. Não sem enfrentar a resistência dos trabalhadores.

A violenta repressão resultou na morte de três metalúrgicos:  Carlos Augusto Barroso, de 19, Valmir Freitas Monteiro, 27 anos, e William Fernandes Leite, de 22 anos, e dezenas de feridos.

As péssimas repercussões de tamanha violência mudaram o resultado eleitoral às vésperas das eleições municipais daquele ano, garantindo vitória expressiva para a esquerda política brasileira. O povo mostrava que não queria a ditadura militar.

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