10 dias de luta no Equador: repressão aumenta e levante indígena e popular eleva resistência

10 dias de luta no Equador: repressão aumenta e levante indígena e popular eleva resistência

A CSP-Conlutas conversou com Xavier Solis e Romel Sacta, advogados ativistas pelos Direitos Humanos do Equador que monitoram a situação no país

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Por: Sâmia Teixeira

No Equador, desde o dia 13 de Junho uma revolta popular tem sacudido o país.

Convocada pela Conaie (Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador), uma das maiores e principais organizações que representa diversas etnias originárias equatorianas, a mobilização tem enfrentado dura repressão do Estado.

Com um preocupante saldo de ao menos dois mortos, dezenas de feridos e detidos em decorrência das manifestações reprimidas, o governo do banqueiro Guillermo Lasso decretou estado de exceção, que até o momento rege seis das 24 províncias do país.

Nesta quarta-feira (22), ao completar 10 dias de manifestações nacionais, uma exigência pela revogação do decreto foi negada pelo governo, que não demonstra qualquer disposição de diálogo com os movimentos organizados e a população.

Informes locais

As imagens de resistência e disposição de luta divulgadas nas redes sociais, sobretudo das etnias indígenas, são inspiradoras e mostram a força deste movimento que pode influir por outros países da América Latina.

 

Miles de personas se movilizan en el norte de Quito a la altura de las Naciones Unidas pic.twitter.com/ltA0AkIcoz

— CONFENIAE (@confeniae1) June 22, 2022

 

O movimento que começou com menos adesão, ganhou amplitude após a prisão da principal liderança da Conaie, Leonidas Iza, e estimulou a participação de outros setores da classe trabalhadora, assim como a juventude e os estudantes.

Nos últimos dias, segundo dados da Conaie, cerca de 10 mil indígenas foram mobilizados para a capital Quito. Além disso, diversos povos atuam em outras regiões, bloqueando estradas e vias importantes de transporte, e protegendo suas regiões dos ataques policiais.

A CSP-Conlutas conversou com Xavier Solis e Romel Sacta, dois advogados ativistas pelos Direitos Humanos do Equador, envolvidos nas lutas e que seguem monitorando as diversas violações que o governo de Lasso tem cometido contra a população que se levanta por direitos e dignidade.

Solis explica que a caracterização observada neste momento “se assemelha à ditadura dos anos 70, com uso do exército a todo momento, que se utiliza de repressão brutal às manifestações”. Apesar disso, o advogado confirmou novas marchas para esta quarta-feira (22), em diversas províncias e na região amazônica, setor de vanguarda em que indígenas respondem à repressão com suas guardas indígenas que cuidam de seus territórios.

“A repressão é brutal mas a resistência tem respondido em maior grau. Mesmo com o governo impedindo a entrada na capital, com forte aparato policial, cinco mil pessoas, 10 mil, 20 mil pessoas entraram por diferentes pontos em Quito. O governo segue não querendo dialogar, responde com discursos estigmatizantes e racistas contra manifestantes, e tem tomado, inclusive, instituições folclóricas importantes, como a Casa de Cultura Ecuatoriana e outras confederações indígenas, invadindo esses espaços com violência e intimidação”, relatou.

Ele ressalta a valentia de indígenas, campesinos e trabalhadores dos setores populares que têm exigido a saída de Lasso, por um governo operário campesino dos trabalhadores. “O descontentamento popular na classe afirma que este governo não os representa”, acrescentou o ativista.

As organizações sindicais do Equador também convocaram uma assembleia e deliberaram participação neste 22 de junho na grande marcha, desta vez também convocada pela FUT (Frente Unitária dos Trabalhadores) em nível nacional.

Romel Sacta, advogado pelos direitos humanos que atua na cidade de Cuenca, avalia que a participação desses setores é primordial para que se mantenha a força da mobilização indígena que precisa resistir à intransigência do governo. “Pouco a pouco vão se somando vários setores. São estudantes, trabalhadores, sindicatos. A princípio as centrais sindicais não demonstraram apoio, mas a partir da pressão das bases, passaram a se envolver e se solidarizar. “A adesão deste setores é fundamental. O governo está apostando que a Conaie não resistirá em Quito, isso devido às diversas dificuldades de manter um número grande de indígenas, sem recursos, em uma grande capital. Mas se a Conaie fracassar, um período reacionário terrível pode prejudicar a vários outros movimentos menores combativos, sindicais, estudantis e populares”, alertou Sacta.

Na região de Cuenca, ele conta que parte do setor de transportes se somou às mobilizações contra o governo Lasso.

Violações dos direitos humanos

Sacta listou algumas das medidas adotadas pelo governo ao decretar estado de exceção, limitando conexão de internet e proibindo o direito civil à reunião, por exemplo. Isso deixou a polícia muito mais à vontade para agir com violência.

De acordo com uma denúncia pública do prefeito de Cayambe, Guillermo Churuchumbi, durante forte repressão, seis pessoas saltaram de um barranco para fugir da investida das forças policiais, sendo que uma delas, um jovem de apenas 18 anos, acabou não resistindo aos ferimentos e morreu. 

O advogado Xavier Solis alerta para um recrudescimento da violência policial na medida em que a mobilização popular ganha expressividade. Até a noite da terça-feira (21), o ativista tinha a informação de que mais uma pessoa teria morrido em decorrência das repressões, um outro jovem indígena foi morto na região de Puyo, nas mãos das forças repressivas. A AFP também confirmou dois mortos e ao menos 90 feridos.

Até o momento, estima-se que sejam 87 os detidos desde o início dos protestos, enquanto a polícia equatoriana informa serem 80 civis presos.

Demandas do Movimento

A Conaie apresentou ao governo 10 demandas, entre elas a redução dos preços dos combustíveis, uma moratória sobre empréstimos e despejos para 4 milhões de famílias pobres, o controle dos preços de produtos básicos, o fim das leis que precarizam o trabalho, o fim das privatizações e contra a expansão das empresas de mineração que destroem o meio ambiente e envenenam a água das comunidades pobres e dos povos originários.

A culpa é do governo

O presidente de direita Guilhermo Lasso, eleito há um ano, fortaleceu as relações com a América e o FMI, o que aumentou a pobreza no país.

As medidas econômicas adotadas pelo governo elevaram o custo de vida no país, com piora após os efeitos da pandemia.

A população também exige melhores condições nos setores da educação e da saúde, com péssimas estruturas e baixos salários para os profissionais, e protesta contra a crescente violência provocada pelo narcotráfico no país.

A CSP-Conlutas se solidariza com a greve geral em defesa dos direitos dos trabalhadores e povos originários no Equador e repudia a violência de Estado contra a população! Todo apoio à luta no Equador! Fora Lasso!

 

 

Imagem de destaque cedida pela Conaie para a imprensa

 

 

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