Dia Mundial do Refugiado: milhões de ucranianos seguem deslocados desde fevereiro

Dia Mundial do Refugiado: milhões de ucranianos seguem deslocados desde fevereiro

Dados globais apontam que 1 em cada 78 pessoas no mundo foi forçada a fugir de seu país

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Por: Sâmia Teixeira

Neste Dia Mundial do Refugiado, dados da ONU (Organização das Nações Unidas) revelam que um terço dos ucranianos foram forçados a abandonar suas casas, desde o início da invasão russa no país, em 24 de fevereiro. 

São mais de 7 milhões de ucranianas e ucranianos que fugiram cruzando fronteiras e mais de 7 milhões em deslocamentos internos. Além disso, há uma importante parcela dos que ficaram, sobretudo as mulheres, para cuidar de companheiros ou idosos incapazes de fugir.

Estima-se que mais 13 milhões de pessoas estejam presas em áreas afetadas ou não possam sair devido ao aumento dos riscos de segurança, destruição de pontes e vias, bem como a falta de recursos ou informações sobre onde e como encontrar segurança e refúgio.

Em Abril deste ano, o periódico The Guardian divulgou exames forenses que indicaram que mulheres na Ucrânia foram estupradas antes de serem mortas por soldados russos.

Estupros promovidos por gangues, agressões à mão armada, tudo isso cometido na frente de crianças e familiares estão entre os depoimentos sombrios coletados pelos investigadores.

Conforme a notícia do jornal britânico, a instituição de acolhimento a sobreviventes de tráfico, violência doméstica e agressão sexual, La strada Ucrânia, revelou que receberam “várias ligações de emergência de mulheres e meninas buscando assistência, mas na maioria dos casos tem sido impossível ajudá-las fisicamente. Não conseguimos alcançá-las por causa do conflito", disse a presidente da organização, Kateryna Cherepakha.

A maior parte dos refugiados ucranianos foram para a Polônia, Romênia, Hungria, Eslováquia, mas também para a República da Moldávia. A maioria são mulheres e crianças, que enfrentam no caminho sérios riscos de abusos e tráfico de pessoas.


Panorama geral

Em todo Dia Mundial do Refugiado o ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas Para Refugiados) levanta um tema relacionado com os eventos do ano correspondente. Com o número de pessoas deslocadas à força em todo o mundo, que agora ultrapassa os 100 milhões, o tema deste ano é “o direito de buscar segurança”.

Segundo dados recolhidos pela ONU, no final de 2021, o número total de pessoas no mundo inteiro que foram forçadas a fugir de suas casas devido a conflitos, violência, perseguição e violações dos direitos humanos era de 89,3 milhões. “Isto representa mais do dobro das 42,7 milhões de pessoas que permaneceram deslocadas à força há uma década, e a maioria desde a Segunda Guerra Mundial”.

A previsão é de que os números alcancem níveis muito mais altos, uma vez que boa parte dos conflitos continuam sem solução e há o risco de novas instabilidades políticas e sociais, um aspecto que definirá o século XXI com um número continuamente crescente de pessoas forçadas a fugir em condições cada vez mais precárias.

Com milhões de ucranianos deslocados e mais deslocamentos em outros lugares em 2022, o total de deslocamentos forçados ultrapassa agora 100 milhões de pessoas. Isto significa que 1 em cada 78 pessoas no mundo foi forçada a fugir.

Considerando somente o caso da Ucrânia, os números fazem com que este seja o maior movimento de pessoas na Europa desde o final da Segunda Guerra Mundial.

 

Situações críticas

A ONU divulgou também números de outros casos de deslocamento de pessoas em situação de busca por refúgio.

O conflito na região de Tigray na Etiópia levou pelo menos mais de 2,5 milhões de pessoas a serem deslocadas dentro do país, sendo que cerca de 1,5 milhões delas retornaram às suas casas ao longo do ano.

No Afeganistão, após a retomada do poder pelo Talibã em Cabul, em agosto de 2021, houve intenso deslocamento dentro do país, bem como para os países vizinhos. O número de pessoas deslocadas internamente aumentou pelo 15º ano consecutivo, mesmo quando mais de 790.000 afegãos retornaram durante o ano.

 

Famílias tentam retornar para suas aldeias na região de Jonglei, no sul do Sudão | Foto:UNMISS / Isaac Billy

 

A República Democrática do Congo, Nigéria, Sul do Sudão, Sudão, República Árabe Síria e Iêmen viram aumentos entre 100 mil e 500 mil pessoas desalojadas internamente em 2021.

No final de 2021, Síria, Colômbia, República Democrática do Congo, Iêmen, Etiópia e Afeganistão continuaram a abrigar as maiores populações de deslocados internos em todo o mundo.

 

A situação da Palestina

O povo palestino constitui a comunidade de refugiados mais antiga, tendo experimentado eventos extremos de violência, sofrimento e injustiça nas últimas sete décadas, desde que ocorreu a Nakba, com a expulsão e o genocídio de populações inteiras e a destruição de diversos vilarejos na Palestina.

Um a cada três refugiados no mundo é palestino, e a estimativa atual é de que cerca de 7.2 milhões de palestinos sejam refugiados. Mais de 4,3 milhões de refugiados palestinos e seus descendentes deslocados em 1948 estão registrados para assistência humanitária nas Nações Unidas.

Palestinas e palestinos vivem em situações precárias, espalhados por todo o mundo. Um exemplo é o número expressivo que vive na Síria, país que, após 11 anos de conflito, se encontra devastada e sem qualquer estrutura para serviços básicos. Lá, a maior parte dos palestinos vive em campos de refugiados como os de Yarmouk, Sbeineh & Khan Eshieh.

 

Luta e solidariedade sem fronteiras

A CSP-Conlutas possui longa história de apoio aos povos em trânsito, vítimas de perseguições de governos e grupos violentos, crises políticas, econômicas, e do capitalismo ou de sua decorrente destruição climática.

Em 2010, a Central visitou o Haiti e se colocou contrária às tropas de ocupação da MINUSTAH, lideradas pelo governo brasileiro. 

A USIH (União Social dos Imigrantes Haitianos) surgiu a partir do apoio institucional e político da CSP-Conlutas.

Mais recentemente, com o apoio jurídico da Central, haitianos entraram com pedido para receber familiares que ainda vivem na ilha caribenha, para que se reúnam no Brasil. Isso se dá em meio às constantes instabilidade políticas e onda de violência que tomaram o país após o assassinato do presidente Jovenel Moïse.

Em 2016, a CSP-Conlutas esteve na Palestina construindo relações de luta com os movimentos locais e se posiciona em solidariedade com a luta pela libertação da Palestina. Além disso, a Central apoia a campanha BDS (Boicotes, Desinvestimentos e Sanções), denunciando e recusando qualquer vínculo com a racista Federação Sindical Israelense Histadrut. 

Sobre os refugiados vindos da Síria, dentre eles muitos de origem palestina, a Central também se manifestou em apoio às Revoluções Árabes, opondo-se a qualquer intervenção estrangeira, bem como a governos totalitários e opressivos.

Em 2017, a CSP-Conlutas e a Rede Sindical Internacional de Solidariedade e Lutas realizaram o “Encontro das Américas”, que reuniu centenas de ativistas e militantes sindicais e denunciou as investidas violentas do então presidente Donald Trump, o imperialismo norte-americano e a construção dos muros e das leis repressivas anti-migração.

Em 2018, uma delegação da CSP-Conlutas foi à Roraima para construir trabalho em conjunto com os refugiados venezuelanos. A partir desta iniciativa, surgiu a ANIV (Associação Nacional de Imigrantes Venezuelanos).

Em relação aos povos africanos, a CSP-Conlutas tem apoiado os movimentos sociais e populares na África negra que lutam por justiça e reparações, o que reverbera inclusive em situações bem próximas de nós, brasileiros, como o caso do assassinato do congolês Moïse Kabagambe, morto no início de 2022 após exigir pagamento por seu trabalho em um quiosque da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

A CSP-Conlutas esteve presente nos atos de protesto contra a morte do jovem negro, denunciando a precariedade que enfrentam os migrantes africanos e negros no Brasil.

Em abril deste ano, a Central fez parte do Comboio Sindical de Apoio à Resistência Operária Ucraniana, que chegou em Lviv em 29 de abril de 2022, para entregar 800 kg em mercadorias ao Sindicato Independente de Mineiros e Metalúrgicos de Kryvyi Ryh, bem como para participar da conferência "Dimensões da Guerra", organizada pelo movimento ucraniano Sotsyalnyi Rukh.

A delegação da Rede Sindical Internacional de Solidariedade e Lutas na Ucrânia contou com sindicalistas da Polônia (OZZ Inicjatywa Pracownicza), Brasil (CSP-Conlutas), França (Solidaires), Itália (ADL-Cobas), Lituânia (G1PS) e Áustria (IWA).

O objetivo da ação, para além da emergência humanitária, foi o de construir a solidariedade internacional proletária em palavras e atos, com o fim de apoiar a classe trabalhadora ucraniana em sua resistência contra a agressão de Putin por qualquer meio necessário.

Por considerarmos a luta internacionalista a base de nossos esforços pela liberdade e dignidade de todos os povos, pelo fim dos muros, prisões e toda forma de violência e exploração, neste Dia Mundial do Refugiado reforçamos o chamado pela luta classista e sem fronteiras!

 

Foto de capa; Photo: UN Women/Aurel Obreja

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