Jornalista da Al Jazeera é morta por soldados israelenses na Cisjordânia

Jornalista da Al Jazeera é morta por soldados israelenses na Cisjordânia

Shireen Abu Akleh estava identificada com colete e capacete da imprensa quando foi alvejada

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Por: Sâmia Teixeira

A correspondente da Al Jazeera, Shireen Abu Akleh foi morta na manhã desta quarta-feira (11) em Jenin, na Cisjordânia. A jornalista cobria uma incursão militar israelense que ocorria na região e foi atingida na cabeça por disparo de munição de fogo.

A notícia foi confirmada logo pela manhã pelo Ministro da Saúde palestino e o portal em inglês de Al Jazeera, após a circulação de vídeos que registraram Abu Akleh estirada ao chão e sendo carregada e levada ao hospital.

Outro jornalista, Ali Samoudi, foi atingido nas costas no mesmo evento e permanece hospitalizado e estável.

 

Manipulação dos fatos e testemunhas

Com a rápida repercussão do caso, as autoridades israelenses passaram a divulgar informações desencontradas sobre o ocorrido, utilizando vídeos de outro local para responsabilizar resistentes palestinos supostamente armados em situação diferente de conflito.

O Primeiro Ministro Naftali Bennett emitiu uma declaração afirmando que "parece provável que os palestinos armados - que estavam disparando indiscriminadamente no momento - foram responsáveis pela infeliz morte da jornalista".

Contra a investida de informação falsa, tanto testemunhas quanto veículos de comunicação têm se pronunciado.

De acordo com o jornalista israelense Barak Ravid, Bennett baseou sua afirmação em um vídeo que foi filmado por palestinos e compartilhado nas mídias sociais.

No vídeo, uma voz pode ser ouvida dizendo em árabe: "Eles atingiram um soldado, ele está deitado no chão".

O portal de notícias Electronic Intifada e a organização israelense de direitos humanos B'Tselem publicaram vídeos que mostram as diferentes localizações dos distintos eventos, para confirmar a desconexão dos registros.

 

This morning, B’Tselem’s field researcher in Jenin documented the exact locations in which the Palestinian gunman depicted in a video distributed by the Israeli army, fired, as well as the exact location in which Journalist Shireen Abu Akleh was killed. pic.twitter.com/6VbEJJuF7z

— B'Tselem בצלם بتسيلم (@btselem) May 11, 2022

 

Samoudi, o outro jornalista ferido que segue internado, afirmou à imprensa que os profissionais de comunicação ficaram sob intenso ataque das forças israelenses e que não havia disparos do lado palestino naquele momento contra soldados israelenses.

"Nós íamos filmar a operação do exército israelense e de repente eles nos alvejaram sem nem ao menos nos pedir para sair ou parar de filmar", disse Samoudi. "A primeira bala me atingiu e a segunda bala atingiu Shireen. Não havia resistência militar palestina alguma no local", contou.

Shatha Hanaysha, outra jornalista que estava ao lado de Abu Akleh, também disse que não houve confrontos entre os combatentes palestinos e o exército israelense e acredita que os jornalistas tenham sido de fato alvos dos militares.

"Éramos quatro jornalistas, estávamos todos usando coletes, todos usando capacete", disse Hanaysha à Al Jazeera. "O exército de ocupação [israelense] não parou de atirar mesmo depois que ela desmaiou. Eu nem conseguia estender meu braço para puxá-la por causa dos tiros", descreveu a jornalista.

Segundo investigações iniciais, o ferimento de Abu Akleh foi causado por balas do tipo “butterfly” (borboleta), que expandem com o impacto, causando danos ao tecido interno, artérias e veias em grau muito mais severo.

O exército israelense tem utilizado esse tipo de munição há tempos, desde as manifestações da chamada “Grande Marcha do Retorno”, movimento massivo ocorrido em 2018. Na mesma época, dois jornalistas, Yaser Murtaja e Ahmad Abu Hussein, também foram mortos e dezenas de outros ficaram feridos.

 

Comoção, revolta popular e mais repressão

Shireen Abu Akleh trabalhou na Al Jazeera desde 1997 e era conhecida como “a voz da Palestina”, por cobrir os eventos nos territórios ocupados há cerca de duas décadas. 

A profissional esteve na linha de frente em diversos momentos de difícil cobertura jornalística e de intensa exigência emocional e psicológica, incluindo a Segunda Intifada,  entre 2000-2005 e os ataques israelenses na Faixa de Gaza.

 

Muita comoção no momento em que o corpo da jornalista Shireen Abu Aqleh - assassinada pelas forças de ocupação de Israel com um tiro na cabeça - chega à sede da emissora Al-Jazeera em Ramallah, onde será velada.#PalestineUnderAttack pic.twitter.com/0NHblbhLwc

— Ju Medeiros 🇨🇺🇻🇪🇳🇮🇵🇸🇸🇾🇨🇳🇰🇵🇷🇺🇻🇳 (@julianamscastro) May 11, 2022

 

A morte de Abu Akleh gerou enorme comoção e multidões carregaram o caixão com seu corpo pelas ruas da Cisjordânia ocupada. 

Em sua casa, enquanto a jornalista era velada, policiais israelenses invadiram o espaço ordenando que bandeiras palestinas fossem retiradas da fachada da residência.

 

שוטרים הגיעו לבית משפחת אבו עאקלה כדי לבקש שיורידו דגלי פלסטין שנתלו מחוץ לבית. pic.twitter.com/G0wg8HDote

— نير حسون Nir Hasson ניר חסון (@nirhasson) May 11, 2022

 

Abu Akleh era palestina com cidadania americana. Este é o segundo caso de morte de um palestino americano somente em 2022. Em fevereiro deste ano, o Departamento de Estado dos Estados Unidos pediu a Israel que conduzisse uma "investigação criminal completa" depois que soldados israelenses, no mês anterior, mataram Omar Assad, um idoso palestino americano.

Apesar de tais eventos gerarem algum desgaste diplomático, a realidade ainda é a de que Washington fornece a Israel bilhões de dólares de armas a cada ano, sem qualquer exemplo anterior de prosseguimento das exigências com medidas para responsabilizar o estado ocupante.

A CSP-Conlutas se junta às manifestações de repúdio contra mais este ato criminoso por parte do estado israelense contra o povo palestino e, neste caso em especial, contra profissionais da comunicação que realizam o árduo trabalho de dar voz aos silenciados.

Do Rio ao Mar, Palestina livre! 


 

Com informações da Al Jazeera, Middle East Eye e Electronic Intifada

 

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