Juntos e misturados: indígenas e imigrantes unificam lutas em ocupações em Manaus

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Em Manaus (AM), cinco ocupações urbanas se destacam pela composição mista e peculiar. Além de famílias sem-teto brasileiras, há imigrantes haitianos, colombianos, venezuelanos e indígenas de várias etnias que lutam pelo mesmo ideal: o direito à moradia.

No total mais de 25 mil famílias resistem há pelo menos três anos nessas localidades. São 5 mil hectares terras  que compõem as ocupações Monte Horebi 1 e 2, Rei Davi, Paraíso Verde, Monte Ararati e Parque Buriti 3.

Pressão e perseguição por grileiros e polícia

Dos 27 latifúndios que existem no Brasil, 12 estão no Amazonas. Por volta de 45 milhões de hectares são grilados. Somente em Manaus são 30 milhões de hectares.

Entre os principais desafios nessas ocupações está a ameaça constante de grileiros de terra e da polícia. “Os grileiros já foram na minha porta para me matar. Esse mês, policiais entraram na minha casa, colocaram uma arma na minha cabeça, do meu filho de seis anos e do meu esposo e falaram que só não iriam matar a gente porque eles estavam de bom humor. A gente é muito ameaçado”, relatou a cacica Bia Kokama, uma das lideranças dessas ocupações, e que esteve presente do 3° Congresso da CSP-Conlutas.

Coexistência e resistência

As ocupações urbanas encabeçadas por índios ocorrem na região porque a população indígena está sendo expulsa de suas terras, em razão dos interesses dos políticos e grandes empresários em instalar mineradoras dentro das terras indígenas.

Tendo como alternativa apenas as áreas urbanas, os índios formaram essas ocupações e também acolheram imigrantes. “A gente abraçou um povo que veio de um lugar que estava sendo maltratado, então a gente acomodou e acolheu cada um deles”, explicou a cacica.

Atualmente, nestas ocupações vivem 300 haitianos, 15 venezuelanos, 12 colombianos e, pelo menos, 20 famílias indígenas de diversas etnias.

Entre as pessoas acolhidas nessas ocupações está a haitiana Michele de Diz Rochelle.  “Os haitianos chegam aqui no Brasil e não tem onde ficar, onde morar, depois do terremoto, os que não morreram, perderam tudo. Fomos recebidos aqui, mas, e depois, como fazer para viver? Os lugares onde ficam os haitianos são ruins e não temos o direito de ficar muito tempo”, justificou.

Quando chegou ao Brasil, Michele tinha um negócio, uma loja de roupa em que deu possibilidade de trabalho para haitianos e brasileiros. Depois que o seu negócio faliu, devido à crise, e o aluguel ser muito caro, foi despejada. “Perdi tudo e fui morar na rua, fiquei cinco dias nessa situação”, contou.

Segundo a haitiana, um dia ela estava dormindo na rua. Uma pessoa a alertou do perigo de estar naquele local e lhe deu uma carona até o terreno onde vive até hoje. Depois dela, outros vieram e formaram o que é hoje a ocupação Horebi.

O governo não os ajuda em nada, as ruas foram construídas pela própria comunidade, assim como a energia elétrica foi colocada pelos próprios moradores das ocupações. “Começamos a fazer mutirão, abrir ruas, a gente [haitianos] e os índios”, relatou. “Ainda não é o ideal, mas ruim mesmo era quando eu pagava aluguel”, completou.

Na ocupação Monte Horebi, a população tanto indígena, branca ou imigrante vive do sustento da terra, com plantações de macaxeira, cheiro verde, pimenta cheirosa, jerimum entre outros alimentos.

Manter a tradição e coexistir com diversos tipos de cultura, língua e costumes não é uma tarefa fácil, mas é aplicada na ocupação tendo como pilar o respeito, sobretudo com o meio ambiente. “Preservamos a comunidade. Avisamos que não se pode derrubar as árvores embaixo dos igarapés. A gente não deixa que ninguém venha prejudicar o meio ambiente”, explicou Bia.

A cacica tem como ideal agregar cada vez mais esses segmentos para que todos tenham onde morar. “Hoje ninguém quer saber se tu tens o que comer, se tu não tens um lugar para colocar a cabeça no travesseiro e dormir bem. Hoje as pessoas só se preocupam com si. Eu me preocupo, porque já vivi isso na minha vida, de não ter onde morar, de viver uma humilhação. Então hoje eu luto por esse ideal”, relatou.

O Luta Popular, movimento de moradia filiado à CSP-Conlutas, apoia essas ocupações e se aproximou dessas lideranças que marcaram forte presença no 3° Congresso da CSP-Conlutas.

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