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Religião e População LGBT: amor ao próximo ou discurso de ódio?

07/05/2013


Com a chegada de Marcos Feliciano (PSC-SP) à Presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, jogou-se ainda mais luz sobre o viés conservador da bancada evangélica no Congresso Nacional.
 
 
Não coincidentemente, ganhou repercussão a notícia de que um padre da cidade de Bauru-SP foi excomungado da igreja católica por pregar a favor da livre expressão da sexualidade e do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Como resultado, Padre Beto foi excomungado da igreja. Com total razão, constatou que “em outros tempos, seria queimado”.
 
 
Em que pese ser inquestionável para nós da CSP-Conlutas a defesa da liberdade religiosa, não é possível ignorar o papel de determinadas denominações religiosas que, enquanto instituições sociais, atacam os direitos humanos e pregam um discurso de ódio.
 
 
Não entraremos na discussão sobre as diferenças entre a igreja católica e as evangélicas. É indiscutível que reúnem-se sob a bandeira destas igrejas pessoas progressistas nos mais variados graus, o que se refletiu em alguns momentos históricos, como a existência da Teologia da Libertação, nos anos 1980, e mesmo as igrejas evangélicas inclusivas, que pregam a não discriminação por orientação sexual.
 
 
No entanto, é preciso constatar que estes exemplos citados são uma exceção bastante minoritária. Impera na maior parte da igreja católica e das igrejas evangélicas um discurso discriminatório, que sustenta boa parte dos assassinatos homofóbicos que acontecem no Brasil, e que aumentam a cada ano.
 
 
Sob a justificativa de defenderem a liberdade religiosa expressa na Constituição, rasgam a mesma ao atacar princípios como a não-discriminação e o tratamento igualitário. Usam dois pesos e duas medidas: promovem um discurso hipócrita de amor ao próximo, quando na prática instigam as pessoas ao ódio contra quem não se encaixa em seus dogmas.
 
 
Para piorar a situação, estas denominações religiosas têm cada vez mais buscado se articular politicamente em torno de suas crenças, criando no Congresso bancadas informais, minando de forma descarada o Estado laico.
 
 
O governo federal, neste contexto, trai sucessivamente as pautas do movimento LGBT em nome da governabilidade. Por exemplo, para tentar salvar o corruptíssimo ex-ministro Antônio Palocci, o então ministro da educação Fernando Haddad engavetou o material didático de combate à homofobia destinado às escolas públicas; em troca, a bancada evangélica deixou de trabalhar pela queda de Palocci.
 
 
Voltando ao tema central deste texto, podemos dizer que a excomunhão de Padre Beto e a chegada de Feliciano ao cargo que ocupa fazem parte do mesmo contexto político: a perigosa ingerência da religião na vida política, que cada vez mais reforça o Estado burguês de um caráter fundamentalista.
 
 
Mesmo um padre reconhecidamente ligado à direita, que apoiou em sua cidade políticos ligados ao PSDB, DEM e PMDB, não pode ter seu discurso pró-LGBT tolerado pela igreja católica.
 
 
No contexto da recente escolha de um novo papa, é impossível ignorar o papel dos fundamentalistas católicos ao longo da História. Se ontem queimavam “bruxas” na fogueira, hoje produzem um discurso que serve de combustível para os assassinatos homofóbicos que crescem cada vez mais.
 
 
Se há diferença entre estas denominações religiosas no que diz respeito aos seus dogmas, esta é uma questão de crença; já a união entre elas para gerar cada vez mais ódio a setores oprimidos da sociedade é um fato que não é preciso de nenhuma clarividência para enxergar.
 
 
Por Setorial LGBT da CSP-Conlutas