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Congresso CSP-Conlutas

Comperj em greve: “Já que o sindicato não pára, nós paramos”

30/04/2012


Como tantos outros da cidade de Itaboraí (RJ), C.D.O (manteremos apenas as iniciais a fim de evitar represálias por parte das empresas) largou o antigo emprego em busca de um salário melhor com o início das obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), uma gigantesca estrutura que abrange duas refinarias e uma plataforma petroquímica, com previsão para começar a operar a partir de 2014. Será a maior petroquímica da América Latina.

 

A obra, uma das principais do PAC, é de responsabilidade da Petrobrás, mas reúne mais de duas dezenas de grandes consórcios. Está parada desde o dia 9 de abril, quando os cerca de 15 mil trabalhadores resolveram cruzar os braços.

 

Assim como ocorre em outras grandes obras do PAC, os operários exigem melhores salários e condições de trabalho, e batem de frente com a direção do sindicato e a intransigência das empreiteiras. Veja a entrevista feita  durante o congresso da CSP-Conluta  com C.D.O., que relatou o sentimento de revolta dos trabalhadores, tanto em relação aos consórcios quanto à atuação do sindicato, atrelado às empresas.

 

Explica como começou essa greve no Comperj

 


Desde novembro nós vínhamos fazendo paralisações, reivindicando melhores salários, aumento do nosso visa-vale, a contratação de mulheres e homossexuais, que hoje não são contratados no Comperj. Mulher lá só para limpar o chão. Mas existem mulheres na construção civil, mulheres carpinteiras… mas lá eles não contratam. São questões que, juntamente com o alojamento para quem vem de fora, vínhamos reivindicando. Mas em novembro essa nossa paralisação foi considerada ilegal. Fizemos outra em janeiro, que também foi considerada ilegal. Em fevereiro, antes do carnaval havia uma assembleia marcada, mas o sindicato não quis realizá-la. O sindicato lá é um sindicato que joga contra nós. É um sindicato da CUT, dirigido por seu Manuel Vaz, conhecida como “Manuelzim”, que não está do nosso lado, mas do lado da Petrobrás. 

 

Aí então os funcionários de uma firma lá de dentro, chamada Alusa, fez um manifesto e uma paralisação e com isso foi atingindo outros canteiros para parar também. Já que o sindicato não pára, nós paramos. Aí parou o canteiro do consórcio da SPE. Com isso foi aumentando o movimento, até chegar à TEAG (maior consórcio). Lá teve umas pessoas que aderiram ao movimento, e outras não, houve até uma pancadaria que morreram dois. A Petrobrás abafou e o sindicato nem toca nesse assunto. Não chegou na mídia. Ninguém viu a Globo ou a Record falando. Mas morreram dois trabalhadores em fevereiro. 

 

Como essa paralisação cresceu até parar totalmente o Comperj?

 

Como nossa paralisação começou lá dentro, o sindicato teve que apoiar o nosso manifesto. Mas aí a nossa paralisação foi novamente considerada ilegal. Mas dia 9 paramos novamente, publicamos em edital, e essa é considerada legal. Está tendo piquete todos os dias, está tudo parado lá. E a gente não volta enquanto não tiver o nosso aumento de 12%, o aumento do visa-vale, alojamento para quem vem de fora e a contratação de mulheres e homossexuais.

 

Como são as condições de trabalho e moradia lá?

 

O que o sindicato fala é que as firmas lá são obrigadas a colocar alojamento para quem vem de fora. Mas esses alojamentos não comportam tanta gente. Vem gente do Nordeste, de São Paulo, do país todo. Então, muitas firmas não dão alojamento e a pessoa é obrigada a pagar aluguel. Chegam a morar vinte em uma kitinete. Tem gente dormindo no quintal. E os imóveis de Itaboraí , com essa procura, aumentou demais. Um aluguel de uma kit não sai por menos de mil reais! Outro direito que deveriam dar ao funcionário que vem de fora era passagem para ele visitar sua família. Tem firma que até dá isso, mas só para quem está no alojamento. E quem foi obrigado a alugar uma kitinete? Por que esse não tem direito? Tem que ter também. E aí é difícil você chegar e falar ‘o sindicato vai lutar por isso’. O sindicato joga contra! Vai lá em cima, fala um monte de coisa e nada sai no papel. Desce do carro de som e vai falar com a Petrobrás. É piquete sendo vendido… 

 

Como os consórcios vem tratando as reivindicações?

 


Quando tem assembleia, eles mandam ônibus só na ida. Pra voltar, tem que ir a pé. O pessoal de Niterói não está podendo ir à assembleia porque não estão botando ônibus pra voltarem. Eu por exemplo moro no centro de Itaboraí. A assembleia é na ‘Reta’, caminho para o Comperj. Preciso voltar a pé. Eles descontam nosso salário por causa da greve, acaba faltando dinheiro para pagar passagem pra voltar. Além disso tudo, somos obrigados a chegar lá e ouvir as mentiras do sindicato, nada resolvido, e ainda voltar a pé? Agora, não era para o sindicato bater em cima disso daí? Exigir ônibus? Às vezes tem uns motoristas que são legais e levam a gente, mas essa não é a ordem lá.

 

Qual é o sentimento dos operários lá, tanto em relação ao sindicato quanto às empresas?

 

Em relação ao sindicato é só revolta. Porque nosso movimento vem desde novembro e até hoje não foi nada resolvido. Cinco meses cara! A gente só vem levando! No começo pedíamos 18% de aumento, o sindicato sem consultar ninguém baixou para 12%, mas as empresas só querem dar 9%. Agora vou te dizer, se eles aceitarem dar 12% o pessoal só entra porque se não vai ter desconto, demissão, por que se não…

 

Houve demissões nessas paralisações que já aconteceram desde novembro?

 

Rapaz, houve demissões inclusive de pessoas que eram da comissão de negociação. E o sindicato nada fez! Tem um rapaz lá chamado ‘Mineiro’, que era da comissão, uma das pessoas que mais falavam no carro de som. Ele era da TEAG e foi mandado por embora por justa causa. E o sindicato nada fez pelo Mineiro. Por que o sindicato não luta pelo coitado do Mineiro? E o cara está lá desempregado…

 

Houve alguma manifestação do governo em meio a esses conflitos?

 

Nenhum político do Rio ou Itaboraí se manifesta. Nenhum! A nossa esperança é que agora tem algumas pessoas da CSP-Conlutas que estão indo lá. Tem o Buca (André Bucaresky, dirigente do Sindipetro/RJ), o Atnágoras foi lá. Isso aí levantou uma esperança. Com essas pessoas aí, o sindicato já fica com medo, pois sabe que nós não estamos sozinhos.  Tem gente ali lutando por nós. Isso amedronta o sindicato. 

 

Por Diego Cruz