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Reportagem mostra o que está por traz das ocupações da ONU

09/10/2011


Operações da ONU recebem cada vez mais críticas

 

Após sete anos de missão no Haiti e nova atuação na Guiné-Bissau, os resultados das intervenções militares preocupam estudiosos e ativistas sociais

 

Há seis meses, um jovem de Guiné-Bissau foi detido pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP). Ele portava 490 gramas de cocaína e escondeu a droga na palmilha do tênis que calçava. Segundo o guineense, ele teria recebido a droga em uma festa na cidade de São Paulo e não sabia dizer quem era a pessoa que encomendou o serviço e nem a quem entregaria a droga ao chegar na Guiné-Bissau.

 

O crescente problema de narcotráfico no país africano foi confirmado após relatório da ONU e causa preocupação às comunidades internacionais. Desde 2007, a ONU mantém  o Gabinete Integrado das Nações Unidas para a Consolidação da Paz na Guiné-Bissau (UNIOGBIS, sigla em inglês) com o objetivo de garantir direitos humanos, recuperar a crença da população em relação ao governo e instituições militares, restabelecer a base judiciária, reestruturar o setor de Defesa e Segurança e combater o tráfico de drogas e o crime organizado. Em entrevista coletiva aos alunos do curso Repórteres do Futuro da Oboré, Projetos Especiais em Comunicação e Artes, o Coronel José Bezerra Neto, do Centro de Comunicação Social do Exército Brasileiro, anunciou o envio de quatro policiais militares em missão da UNIOGBIS, formando assim mais um quadro de esforços para treinamento policial aos militares guineenses.

 

Missões de Paz em discussão – Para Paulo Marques, historiador e pesquisador doutorando em Estado, Sociedade e Educação pela USP, um conjunto de fatores é responsável pela atual situação de crimes e tráfico de drogas incontroláveis na Guiné-Bissau. “A decomposição do projeto desenvolvimentista, a onda de desregulamentação e a grave crise do estado nacional, somados à miseria, alto desemprego e crescimento da economia informal, foram terreno fértil para o crescimento do crime organizado. São os bandos armados que ocupam a desintegração do Estado e são extensões do poder de estado, inseridos no ciclo da economia política dos tóxicos”, detalha Paulo.

 

De acordo com os objetivos divulgados pela ONU, a prioridade para o caso de Guiné-Bissau é a estabilização e treinamento efetivo das instituições de segurança do país, porém, como observado no Haiti, outras questões que também fazem parte da missão africana, mas que não são tratadas como prioridade, devem ser levadas em conta para que a criminalização, consequentemente, diminua. O Coronel Menezes, durante apresentação das Missões de Paz da ONU na Oboré, salientou o sucesso do trabalho das tropas brasileiras no Haiti que, segundo ele, “é devido tanto as operações armadas como as necessidades humanitárias”, afirmando que “se não estruturar a base social, é impossível obter resultados positivos em relação aos objetivos da infantaria do exército”.

 

Segundo Raphael Tsavkko, graduado em Relações Públicas pela PUC, de São Paulo, “a ação militar é uma intervenção que nem de longe tem o objetivo de garantir os interesses do país ocupado, mas somente do país ocupante e seus aliados” e cita como exemplo desse tipo de dominação os EUA e as missões no Haiti. Além disso, Raphael afirma que as falhas já conhecidas no sistema da Polícia Militar e as constantes acusações de estupros e excesso de força policial em diversos pontos da África, são sinais de que o modelo de ação humanitária e apoio militar não funciona da maneira mais apropriada. “O principal problema, enfim, é o modelo de ‘ajuda’ empregado, baseado em forças militares, na repressão e numa suposta pacificação. O procedimento adequado deve ter como base a ajuda humanitária efetiva e eficaz, no envio de médicos e profissionais competentes para que se possa reconstruir ou fortalecer instituições”, explica.

 

O caso mais recente que diverge do modelo ideal comentado por Raphael é o de abuso sexual a um haitiano por militares das tropas do Uruguai. O ocorrido segue agora em investigação e alimenta mais suspeitas sobre os benefícios declarados das operações da ONU.

 

Investimentos econômicos – Outro ponto muito discutido sobre a ajuda internacional é o envolvimento comercial que os países ocupantes adquirem no mesmo período de pacificação. Paulo comenta que as ações militares não conquistaram tantos objetivos satisfatórios quanto a centralização de capital por parte do Brasil. “Nos últimos anos, ocorreram inúmeras missões de prospecção de petróleo feitas pela Petrobrás, que já liberou os investimentos na Guiné-Bissau. Existe interesse das transnacionais brasileiras, como a Petrobrás, a Vale e empreiteiras, em conquistar espaços de mercado e capitais naqueles países da África Ocidental”, comenta. Só a Vale, de acordo com a Boston Consulting Group, nos últimos dez anos, foi a quarta empresa mais rentável dentre as maiores companhias. Tendo como agravante a desestabilização política na Guiné-Bissau relatada pela ONU, “os fartos recursos, a ausência de liberdades democráticas e uma farta mão de obra barata, operam dentro da estratégia de redução de custos do capital mundial em crise”, conclui Paulo.

 

Movimentação na Guiné-Bissau – Com características diferentes das informações que chegam do Haiti, os relatos de guineenses sobre a atual situação política no país constatam que as mobilizações contrárias ao governo não são iniciadas por populares, e sim por partidos políticos de oposição, como o Partido para Renovaçao Social (PRS), que pede durante os atos públicos a saída do Primeiro Ministro. O jornalista alentejano Jorge Rosmaninho, que é especialista em assuntos da África e percorre o continente há mais de 5 anos, diz que é comum na Guiné-Bissau que os manifestantes sejam pagos para que participem nestes tipos de atos, sejam eles organizados pela oposição ou pelo governo. “Baseio esta minha análise no fato de a oposição clamar pela queda do governo, mas ao mesmo tempo não realizar iniciativas parlamentares que possam provocar essa queda. Ou seja, a oposição quer a todo custo que o governo caia, para dessa forma ter acesso ao poder”, diz.

 

Comissões de jovens e estudantes realizam marchas pela estabilização e paz no país, e pedem acordos pacíficos entre governo em atuação e partidos políticos de oposição. Outro setor que também trabalha de maneira mais diplomática é o sindicalista. O secretário geral da Confederação Geral dos Sindicatos Independentes de Guiné-Bissau (CGSI-GB), Filomeno Cabral, diz que a maior insatisfação dos trabalhadores guineenses em relação ao governo “é referente ao alto custo de vida, dado que 50% do Orçamento Geral do Estado é suportado pela ajuda internacional” e que o principal objetivo dos sindicatos é “pressionar o governo a arranjar meios para fazer um reajuste salarial, começando na camada mais desfavorecida dos trabalhadores para cima, mas  fazendo isso sempre através de diálogo, dentro do quadro do Conselho Permanente de Consertação Social”, conclui.

 

Por Sâmia Gabriela Teixeira