Em terra de boi, índio não é gente, diz índia Kaiowá-Guarani Dirce Verona

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Em terra de boi, índio não é gente

Em um apelo emocionado, líder Kaiowá-Guarani denuncia genocídio e pede apoio para que seu povo não seja exterminado

Com voz firme e decidida, a índia Kaiowá-Guarani Dirce Veron fala porque veio participar do 1º Congresso da CSP-Conlutas. “Vim aqui fazer um desabafo, compartilhar com vocês o sofrimento do meu povo e denunciar o genocídio dos Kaiowá-Guarani”, desabafa. Seu depoimento na abertura do congresso emocionou o plenário, que a aplaudiu em pé.

“O branco não enxerga o índio. No Brasil, infelizmente, a massa de manobra não quer ver o índio, eles só enxergam o índio na época de eleição. A gente só serve para fazer parte de palanque e aparecer nos cartazes, mas não tem política pública para os índios”, contou.

Bacharel em Direito e aluna de Ciências Sociais e Humanas na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Dirce abraçou a fundo a luta em defesa dos Kaiowá-Guarani após o assassinato de seu pai Ava Taperendy (Marcos Veron). Funcionário público aposentado, ele mergulhou na luta pela demarcação das terras indígenas, se unindo às demais lideranças para reaver as terras que foram tomadas dos indígenas.

Veron foi assassinado em 13 de janeiro de 2003, numa emboscada que segundo Dirce teve a participação de mais de 20 homens. Apenas três foram formalmente acusados e levados a júri popular em 2011. Considerado culpados, foram condenados a 12 anos e três meses de cadeia, pena que cumprem em liberdade por terem passado quatro anos presos antes do julgamento. “É o que prevê a lei”, comenta Dirce.

A indígena se diz feliz com o resultado, pois ao menos o crime de pistolagem contra seu pai, e contra os índios de uma forma mais ampla, foi reconhecido pela justiça e noticiado à sociedade. Com isso, Jacinto Honório, grande fazendeiro do MS foi indiciado como mandante do crime.

“Em terra de boi, índio não é gente”

Dirce denuncia que a relação dos índios com os fazendeiros mato-grossenses é desumana. “É a pior que já vi nesses meus 46 anos de vidas. Eles não querem saber da gente, eles acham que não temos valor nenhum. Lá, o gado vale mais que índio. Entre nós e o gado, eles escolhem o animal e se tivermos que morrer para dar espaço para o pasto, eles matam”, conta.

A aldeia em que mora fica na Reserva Taquara,em Júri. Segundoela, a área tem nove mil hectares, mas apenas 130 são ocupados pelas 320 famílias que vivem na reserva. O resto todo está tomado por cana-de-açúcar ou por soja. Sem espaço para o cultivo, a pesca e a caça, Dirce diz os índios apenas existem e que a demarcação da terra é essencial para que o povo Kaiowá-Guarani possa voltar a viver.

“Hoje os índios não vivem. Eu quero ter o direito de continuar vivendo e lutando. O Mato Grosso do Sul tem muita terra. Já ficou comprovado que o índio sempre viveu lá, por isso queremos que demarquem as nossas terras. Para poder plantar e voltarmos a ser auto-sustentáveis”, conta.

No entanto, as políticas para os povos indígenas, promessas dos dois últimos governos federais eleitos, não saem do papel. A força econômica dos fazendeiros da região e a influência que exercem sobre o poder público impede que qualquer projeto a favor dos indígenas avance.

“Todos os parlamentares do estado não gostam do índio e são contra a demarcação de terra. E a relação entre o governo estadual e os fazendeiros é muito boa e com o governo federal também. Um joga a culpa no outro para justificar porque as coisas não são feitas”, relata.

A líder Kaiowá-Guarani denuncia que entra governo, sai governo e o índio continua morrendo. “Continuamos sendo assassinados ou desaparecendo, como foi o caso do cacique Nísio Gomes. Eles insistem em dizer que ele está escondido em algum canto, mas nós sabemos que não é verdade. Índio não faz isso. Ele foi morto”, desabafa.

O que é ruim, pode piorar

A não demarcação dos territórios é fator importante, mas não o único, que contribui para o extermínio da população Kaiowá-Guarani. O descaso do governo federal na implementação de políticas públicas direcionadas é a prova de que o que está ruim, pode piorar. E muito, de acordo com a indígena.

Segundo Dirce, as ações, quando existem, não focam as reais necessidades dos índios. “Antes, pelo menos, eles conversavam com os índios. Hoje, esse governo quer falar pela gente. E o que existe são políticas atravessadas, que nos são empurradas goela abaixo. Se a gente faz parte do palanque e do cartaz, a gente também quer políticas públicas para nós, principalmente em saúde e educação”, denuncia.

A criação da Secretaria Especial da Saúde Indígena (Sesai) é um exemplo de política atravessada implementada pelo governo federal. Dirce conta que antes a verba para atendimento dos indígenas era repassada, via Funasa, para a prefeitura, que era responsável por prestar assistência. Agora, a aldeia de Dirce é atendida, junto com mais outras cinco, pela base da Sesai de Caarapó, que possui apenas um carro para prestar assistência.

“Quando precisávamos ir para o hospital, ligávamos e eles mandavam a ambulância da prefeitura, que demorava uns 40 minutos para chegar. Hoje chegamos a esperar até quatro horas, já teve índia que pariu no carro, no caminho pro hospital, gente que ficou horas sofrendo até conseguir ser atendido”, conta.

Outro problema enfrentado é com a Funai. De acordo com a líder Kaiowá-Guarani, os funcionários contratados, através de concurso público, não estão preparados para atender a demanda dos índios.

“Muita gente entra pra trabalhar na Funai querendo trabalhar com índio, porque é bonitinho e usa cocar. O que acontece é que cada vez mais eles contratam pessoas despreparadas para lidar com a nossa realidade. Eles deveriam dar a oportunidade ao índio de fazer o concurso, pois ninguém melhor que nós para saber como trabalhar as nossas questões. Ainda que tenhamos nossa diferenças, sabemos o que o índio precisa”, avalia.

Mas para Dirce, a culpa não é da instituição Funai, e sim daqueles que a gerenciam, ou seja, o próprio governo. “Eu esperava muito desse governo, fui militante e na minha utopia de chegar lá filiei até sabugo de milho, e nada”, desabafa.

Lugar de índio é na cadeia

Além disso, a criminalização do movimento indígena também é usada pelo governo federal intimidá-los. Segundo Dirce, em 2010, cansados de denunciar o descaso e desmando na administração da Funai local, os índios ocuparam o prédio da instituição. Ela acabou presa, com mais dez lideranças, acusada de formação de quadrilha, e responde o processo em liberdade.

De acordo com Dirce, esse tem sido um mecanismo recorrente de coerção. “A maioria das lideranças indígenas hoje responde algum tipo de processo, seja por invasão, desacato e tantos outros crimes. Isso é um jeito que criaram para calar a nossa boca, nos intimidar, mas não vão nos calar. A minha família, a família de Marco Veron é muito forte e unida e isso eles não vão conseguir destruir”, rebate.

Participação no 1º Congresso da CSP-Conlutas

Dirce foi convidada a participar do congresso por uma militante da CSP-Conlutas, que conheceu durante o último Tribunal Popular da Terra. “Ela convidou para vir aqui falar do genocídio dos Kaiowá-guarani, trazer para os movimentos de diversas partes do Brasil a realidade dos Kaiowá-Guarani”, conta.

A líder dos Kaiowá-Guarani diz que a sua expectativa é das melhores. “Falei com muitas pessoas. Sou a única índia aqui, mas me sinto como se estivesse no meio de um monte de índios. Está sendo uma escola, uma experiência muito rica”, relata.

“Quero contar aos índios a importância de estarmos juntos com a classe trabalhadora. Esse é um movimento transparente em seus propósitos, e une as pessoas na luta por um Brasil melhor para todos. Tenho certeza que fiz grandes amizades com companheiros e companheiras que não vão me deixar sozinha como aconteceu em2003”, fala. Há época do assassinato de seu pai, Dirce diz ter tentado contato com várias lideranças que ocupavam cargos no governo federal, e que lhe viraram as costas.

Para a indígena, a possibilidade de falar aos movimentos de todo o Brasil e também de outros países fortaleceu a luta de seu povo. “E as pessoas aqui sabem que se não nos derem as mãos os Kaiowá-Guarani vão acabar morrendo”, acrescenta, fazendo um apelo.

Por Renata Maffezoli

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